sexta-feira, 26 de junho de 2009

SE A RUA DO CUPIM * FOSSE MINHA























Se a Rua do Cupim fosse minha, ela ainda teria flamboaiãs em ambos os lados, para que as folhas pudessem confortar, com suas sombras, os tranquilos moradores.

Se a Rua do Cupim fosse minha, os postes de iluminação ainda seriam de ferro e as lâmpadas teriam de ser acesas, ao cair da tarde, por um solene funcionário devidamente fardado.


Se a Rua do Cupim fosse minha, ela ainda teria os paralelepípedos originais, sem remendos de alcatrão ou piche e os carros circulariam, sem perigo de choque, nos dois sentidos.





Se a Rua do Cupim fosse minha, as crianças ainda brincariam de “Garrafão”, de “Lacochia” e, até mesmo, de “Dono de Calçada”, pois o pouco trânsito a todas daria a certeza de que as brincadeiras seriam respeitadas e, além delas, principalmente, a vida.




Se a Rua do Cupim fosse minha, as “boiadas” ainda passariam por ela, morosas e assustadoras, alvoroçando a meninada com receio dos pontiagudos cornos dos ruminantes que, sem o saber, caminhavam para o cadafalso.



Se a Rua do Cupim fosse minha, os pregões matinais, vespertinos e noturnos, (estes bem menos barulhentos) ainda apregoariam as suas mercadorias, permitindo que as compras essenciais fossem feitas com esmero e quase sem sair de casa.




Se a Rua do Cupim fosse minha, as saúvas operárias ainda fariam por ela o seu longo percurso, com calma e sem receio, já que o risco de serem interrompidas era inexistente, ou quase.


Se a Rua do Cupim fosse minha, os jabotis ainda poderiam fugir pelos portões entreabertos, pois sempre haveria quem os trouxesse de volta à casa que lhes pertencia.


Se a Rua do Cupim fosse minha, ela só teria um edifício de apartamentos, mesmo assim, com um só andar, sendo a entrada pela rua Bruno Maia.


Se a Rua do Cupim fosse minha, ela teria apenas duas casas em “estilo funcional”, as demais, permanecendo como sempre foram nos sonhos de minha infância.




Se a Rua do Cupim fosse minha, as cadeiras ainda seriam colocadas nas calçadas, para aproveitar o frescor da brisa noturna e jogar conversa fora.




Se a Rua do Cupim fosse minha, os homens mais velhos ainda ficariam de pijama ao portão, à espera do cuscuz quentinho, para acompanhar a suculenta ceia.




Se a Rua do Cupim fosse minha, seu Bilas e dona Bió ainda morariam na mesma casa, soturna, sombria e imponente, com leões de louça no portão, estátuas alegóricas no quintal e urubus de verdade no telhado.




Se a Rua do Cupim fosse minha, seu Adalberto ainda soltaria balões na noite de São João e muitos rojões, na véspera do Ano Novo.


Se a Rua do Cupim fosse minha, todos os seus moradores ainda correriam ao grito de “Pega ladrão” e, apanhado o meliante, ai dele e não dos honestos perseguidores.


Se a Rua do Cupim fosse minha, ela seria como dantes quando, para o meu olhar infantil, estava inserida numa redoma de cristal e alguém a havia mandado ladrilhar com pedrinhas de brilhantes, transformando tudo o que nela passava em flores e amores.


Mas a Rua do Cupim não é minha, não tenho flores, nem amores e, ainda menos, pedrinhas de brilhantes, para que a possa de novo ladrilhar, sorrindo e cantando a alegre canção popular. Pobre de mim!
____________________
* A Rua do Cupim, que já foi objeto de outras postagens, fica na cidade do Recife, nos limites dos bairros das Graças e dos Aflitos (tanto a rua, quanto os bairros, de nomes bizarros).


terça-feira, 2 de junho de 2009

DOM PEDRO LUIZ DE ORLÉANS E BRAGANÇA E LIGNE




















ELOGIO A UM PRÍNCIPE DEFUNTO.
S.A.I.R. Dom Pedro Luiz Maria José Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança e Ligne pode não ter sido, até hoje, um nome muito conhecido do grande público brasileiro, posto que a sua vida foi marcada pela discrição e pela inserção simples e rotineira na vida quotidiana da república, mas é um nome que nenhum brasileiro deve, doravante, deixar de homenagear.




É muito importante, para a a construção de nossa identidade, que os brasileiros não esqueçam a história nacional e recordem que durante 67 anos fomos uma Monarquia Constitucional, marcada por reconhecido progresso nas mais diversas áreas. Todos estudamos História do Brasil e nela aprendemos a amar e a respeitar a Augusta figura de Dom Pedro II, que tantos benefícios trouxe para a coesão e identificação de nossa nacionalidade. Dom Pedro II representa, no imaginário de muitos, a figura do pai ou do avô, que amamos mesmo sem ter conhecido.




Esta postagem, porém, não é para enaltecer os feitos do período monárquico, nem a pessoa do Imperador, mas para lamentar o trágico desaparecimento de um jovem brilhante e com um futuro promissor, que amava ao Brasil e que, por coincidência, era descendente em linha direta de Dom Pedro II (quarto neto). Refiro-me ao cidadão brasileiro Príncipe Dom Pedro Luiz de Orléans e Bragança, que nos deixou no vigor dos seus vinte e seis anos. A tragédia aérea de ontem enlutou inúmeras famílias e, a cada uma delas, transmito as sinceras condolências do blog Lugar do Souto.




Nesta ocasião, com o drama ainda tão recente e sem explicações plausíveis para o ocorrido, encaminho, na Augusta Pessoa do Senhor Dom Luiz, Chefe da Casa Imperial do Brasil, à Família agora enlutada, os mais sentidos e respeitosos pêsames. Que Deus Pai possa confortar a SS.AA.II.RR., avó, pais, tios e irmãos do desditoso Príncipe Dom Pedro Luiz. Os desígnios do Altíssimo escapam, por vezes, à nossa humana compreensão, só nos restando o consolo da lembrança do ente que nos deixou, juntamente com a certeza de que os planos por Ele traçados são sempre justos, porque decorrem de Sua Vontade e Infinita Bondade. Estamos certos de que, neste momento, Dom Pedro Luiz já está ao lado do Senhor, sendo recebido pelos muitos ilustres antepassados, entre eles, São Luís e São Nuno de Santa Maria.




Dom Pedro Luiz (na foto ao lado com a tia, Dona Maria Thereza)* era Príncipe do Brasil e Príncipe de Orléans e Bragança. Nasceu no Rio de Janeiro, em 12 de janeiro de 1983. Bacharel em Administração de Empresas pelo IBMEP do Rio de Janeiro, com pós-graduação em Economia pela Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro. Presidente de Honra da Juventude Monárquica do Brasil, possuindo as seguintes condecorações Grã-Cruz das Ordens Imperiais de Dom Pedro I e da Rosa do Brasil. O Príncipe Dom Pedro Luiz era ligado às principais casas reais e principescas da Europa, sendo o seu desaparecimento profundamente chorado por todos os que o conheceram. Que a pessoa do jovem tragicamente desaparecido seja sempre lembrada pelos familiares, amigos e por cada brasileiro por suas virtudes, pelo papel na construção da história do nosso País e pelos muitos planos que ainda tinha para o porvir, é o que desejamos. Requiescat in pace.



Não conheci, pessoalmente, ao Príncipe Dom Pedro Luiz, mas, reafirmando o que disse no início desta postagem, tal como acontece com a figura do Imperador Dom Pedro II, também os seus ilustres descendentes fazem parte do imaginário coletivo e a eles aprendemos a amar e a respeitar como símbolos da nação brasileira.
__________________________________________________
* Todas as fotos estão disponíveis na Internet.

domingo, 24 de maio de 2009

A VIRADA RUSSA - H. MALIÉVITCH E MUITO MAIS


SUPREMATISMO. A arte a partir do nada.
Cruz Negra, Quadrado Negro e Círculo Negro.

Imperdível a exposição em cartaz na cidade de Brasília, "A Virada Russa". Como é vastamente sabido, o início do século XX foi um momento fértil e turbulento para a história da arte. As artes plásticas, a poesia, a música, a dança, o teatro e, até mesmo, o cinema, repudiavam a tradição e buscavam instituir uma nova norma. A Rússia não fugiu à regra.Adicionar imagem
Adicionar vídeo Remover formatação da seleção
Toda a exposição é dedicada a esse contexto de transgressões, quando os artistas russos buscavam conformar (e confirmar) a virada que se instalou na arte do país nos primórdios do século XX. A coleção trazida ao Brasil pertence ao Museu Estatal Russo de São Petersburgo e totaliza 123 obras, entre telas, cartazes, esculturas, figurinos e alguns objetos do quotidiano de então.

Ontem, passei boa parte da tarde e do início da noite embevecido com as telas de Kandínski, Ródtchenko, Lariónov, Tátlin, Natalia Gontcharova e por aí vai. Algumas obras, eu já conhecia, outras, não, assim como me eram também desconhecidos alguns artistas. Pior para mim, que levei tanto tempo para os conhecer.


Impossível não ficar emocionado ao estar frente a frente com a Promenade de Marc Chagall e não sentir um arrepio com a trilogia de Maliévitch (também grafado "Malevich"), que inicia o presente texto. E o que dizer da "Cabeça de Camponês", retratando o povo russo pelas leis estéticas do superativismo? Genial.

À genialidade deste último, concedo o título da postagem, e ele passa
, assim, a representar cada um dos artistas que constituem a exposição. Todos, entretanto, são merecedores de servir de título a qualquer crônica sobre exposições e sobre a pintura russa daquela época.

Cheguei a pensar em descrever o que foi a deno
minada "virada russa" nas artes, mas, por ser um leigo, prefiro inserir algumas obras do meu favorito, Maliévitch. Peço que apreciem o traço inovador e a força de cada tela, sem esquecer que são todas das primeiras décadas do século passado. Solicito, também, uma atenção especial para o auto-retrato feito em 1933, símbolo da ironia do artista contra os valores estalinistas e inserido no início desta postagem, em miniatura, para aguçar a curiosidade. Maliévitch? Malevich? O que importa é o gênio do artista, não a grafia do nome em nosso alfabeto.



Aos que puderem, aconselho saírem de casa e irem correndo à exposição "A Virada Russa" (em Brasília até o dia 7 de junho e, em seguida, no Rio de Janeiro e São Paulo). Claro, que quem quiser e ainda não tiver ido, poderá visitar São Petersburgo, em 2010, porque todas as obras voltarão para lá. Pessoalmente, ainda não fui à maravilhosa cidade museu da Rússia. Quem sabe, um dia, não irei rever essas obras no Museu Estatal Russo de São Petersburgo? (Sonhar não custa...).

quarta-feira, 20 de maio de 2009

DARWINIUS MASILLAE - IDA, MARAVILHA DA CRIAÇÃO/EVOLUÇÃO

IDA
Et Fiat Lux


Nós, humanos, somos especialistas em muitas coisas, inclusive em dar nomes a pessoas, animais, objetos e fósseis.







Há poucos dias, um grupo de cientistas apresentou
à comunidade internacional um fóssil, ao qual apelidaram de "Ida", que foi identificado como ancestral dos primatas. Os cientistas afirmam que o fóssil é o elo perdido entre os prossímios e os símios, categoria onde, no topo evolutivo, inclui-se o Homo Sapiens Sapiens, isto é, nos incluímos todos. Embora descoberta há mais de vinte anos, só agora Ida foi revelada.

Maravilha da ciência, maravilha ainda maior da Criação.

As descobertas científicas sempre me fascinaram e a cada nova revelação aumenta a convicção que tenho de que tudo o que vivemos é o evoluir constante do "Momento Primeiro". Após o "Comando Criador", a Luz foi feita e, a partir daí, o livre arbítrio foi deixado à criação para evoluir e percorrer a longa caminhada até à "Força Inominada", que foi o princípio e que será o fim do inexplicável percurso.


Estimou-se a idade de 47 milhões de anos para o fóssil da pequena Ida. Tão pouco tempo na girândola do Universo!


A enorme revelação dos cientistas, que a todos surpreende e maravilha, comprova a nossa finitude e pequenez diante da Magnitude Daquele que a tudo criou.

sábado, 9 de maio de 2009

CORDEL DO MAQUILADOR MILAGREIRO

Neste sábado, véspera de um domingo comemorativo, ninguém consegue andar nos centros comerciais de Brasília e, por esse motivo e por preguiça, resolvi ficar todo o dia em casa, meio sem graça e sem disposição para fazer nada, além de dormir, acordar e dormir de novo. No meio da tarde, porém, recebi um telefonema de duas amigas do Recife que iria pôr fim à monotonia do sábado. Durante a alegre (e cheia de vírus gripais) conversa telefônica, uma das minhas amigas, cordelista e pasquinista de carteirinha assinada e com glorioso passado militante, perguntou se eu já havia lido o emblemático folheto, símbolo do cordel pernambucano "O Maquilador Milagreiro".

Naquele momento eu não lembrei de já ter lido o folheto e também não sabia da fama de santo, com direito a operar milagres e tudo, de nenhum maquiador. Prometi às amigas que iria pesquisar sobre o cordel nos meus alfarrábios e, logo que descobrisse alguma referência, daria uma resposta.
Em seguida, mexi e remexi nas minhas caixas, procurei na montanha de folhetos que tenho na biblioteca e, de repente, deparei com o citado folheto que, por estar novinho com as folhas ainda fechadas, deve ter sido colocado na estante muito recentemente. O título é esse mesmo, "Maquilador" (grafado "Maquiladô) e não "Maquiador", como manda o Aurélio. Por outro lado, o adjetivo "milagreiro" indica não aquele que acredita facilmente em milagres, mas sim a pessoa que opera o feito. Escolhi, então, a melhor poltrona, soltei as folhas presas e me entreguei ao folheto, escrito em um português nada conforme com as regras clássicas, que narra o conto cheio de milagres e mistérios de um milagreiro sertanejo que vem operando feitos extraordinários na região. A seguir, reproduzo os primeiros versos, exatamente com a mesma grafia simplória e incorreta do folheto, de autor desconhecido:


"Acreditem, ilustres senhores, que esse fato é verdadeiro

Moça véia vira nova, homem gordo vira magro e osso vira gordura,

Tudo isso acontecendo, sem que ninguém saiba porquê,

Em terras do nosso sertão, lá pr'os lados de Umbuzeiro.

A fila é de se perdê de vista

Com gente rezando e chorando pr'o novo milagreiro,

Pedindo só pr'á sentá na cadeira de doutô,


Oiá aquela máquina que ocês chamam de câmera

E por graça de sei lá quem,


magreza vai virá beleza e veíce será juventude.


Pr'ó povo de Umbuzeiro o milagre é obra séria, fruto de fé e amô,


De um desencarnado bondoso que já foi maquiladô,


Que mijo transforma em água, que depois é congelada sem usá congeladô.


Seja lá o que fô, só sei que é coisa boa, pois tem padre, home e muié


Querendo moiá a cara com água que já foi mijo e que era quente e gelô.

O milagre da juventude tá na água gelada pelo santo maquiladô.

Ao povo do meu sertão, eu que sou cantadô,
só tenho pr'á dizê a todos


Que mais d
o que dom beleza é hábito e obra do milagreiro,

Que já foi maquiladô e
teve fé no Sinhô"
.



domingo, 5 de abril de 2009

CORRESPONDÊNCIA EM TEMPOS PASSADOS


Como eu gostava do tempo em que as pessoas se comunicavam por carta! Sim, carta mesmo, escrita em papel pautado (próprio para correspondência) que, antes de ser enviada, era "bem fechadinha" dentro de um envelope, normalmente com as cores do país de procedência. Durante toda a minha infância, adolescência e parte da juventude a pessoa mais ansiosamente esperada em nossa casa era o carteiro, aquele homem uniformizado (no Recife se diz "fardado") que trazia notícias de pessoas distantes (nem sempre tão distantes assim).




Sou filho de portugueses e receber cartas era uma rotina para a nossa família, sendo que as da vovó para mamãe eram as mais importantes, já que as cartas da família de meu pai iam para a loja e não para a nossa residência, na Rua do Cupim. Não recordo se eram duas por mês ou uma a cada vinte dias, mas sei que a troca de correspondência entre mãe e filha era muito frequente. Quando chegava a altura de minha avó escrever e o carteiro não aparecia com a carta, mamãe começava ficando impaciente e, principalmente, preocupada. A preocupação dela terminava passando para todos nós e eu, em criança, sempre achava que, um dia ou outro, notícias ruins viriam. Ainda bem que elas nunca vieram, pois a saudosa vovó só nos deixou quando eu já tinha mais de quarenta anos (e ela, quase 102) e as "titis" portuguesas faleceram todas depois dela, quando as notícias más já não eram enviadas por telegrama e, muito menos, por carta.
Um dia, no Colégio São Luís, onde eu estudava, apareceu um quadro com endereços de "brotos" de quase todo o mundo que pretendiam trocar correspondência com garotos brasileiros da mesma faixa etária delas (14, 15 anos) e eu escolhi, ao acaso, quatro nomes que estavam no quadro, duas garotas dos Estados-Unidos, uma da França e outra da Polônia, país, à época, na misteriosa "Cortina de Ferro".

Feita a escolha, trouxe os endereços para casa. Na aula particular de inglês, aos sábados de manhã com Mrs. Sterling, britânica típica e maravilhosa, que ensinava a língua materna a toda a Rua do Cupim e arredores, redigimos a carta de apresentação, decidindo que a primeira seria para Rosemary Hinebrook, americana de Highland Park, Michigan. Guardei uma cópia da carta, para não ser repetitivo (nem me contradizer...) e, no dia seguinte, às 15:05h, fui pessoalmente aos Correios e Telégrafos da avenida Guararapes postar aquela que era a primeira carta só minha e não da família. Jamais um ato tão importante seria confiado a outra pessoa, que não a mim próprio.
A partir daquele dia, esperar pelo carteiro deixou de ser apenas um hábito e passou a ser quase uma obsessão.
A carta para o idílico Estados-Unidos foi a primeira de uma longa amizade, graças ao carteiro que me trouxe muitas outras, algumas perfumadas e com fotos coloridas. Rosemary e eu fomos pen friends por quase 10 anos, mas depois a correspondência foi escasseando até parar e nunca mais eu soube dela, nem com a ajuda da moderna Internet.
A seguir àquela primeira carta, enviada em 1961 ou 1962, muitas e muitas outras foram escritas e recebidas. Cartas de amor, cartas de amigo, cartas de nem um nem outro, mas sempre ansiosamente esperadas. Quando a correspondência não chegava, eu reclamava dos correios ou do carteiro, mas no dia em que, lá dentro de nossa casa, alguém ouvia o grito, misto de voz de tenor com barítono, "Correiôôôô", os corações batiam mais forte e toda a raiva sentida pelo simpático carteiro era esquecida e ele, o herói do dia.

Claro que hoje ainda há cartas, carteiros e correspondência, mas que tudo mudou, lá isso
mudou! A ansiedade deixou de existir, não há mais tempo para esperar nada nem ninguém. Os carteiros, agora também com mulheres exercendo a profissão, só trazem contas a pagar e publicidade não pedida, nem desejada. O correio tradicional está sendo substituído pelo correio eletrônico, insípido, que não provoca ansiedade e, o que é pior, faz mal à vista.

Não me emociono mais ao receber e-mail e até os de amor, que são raros, perderam o romantismo. O que eu queria mesmo era continuar esperando o carteiro e ouvindo o seu pregão apregoado com tanta galardia: "Correiôôôô".

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

YES YOU DID, PRESIDENT OBAMA


BARACK HUSSEIM OBAMA.


Produto da mídia (ou dos média, como se diz em Portugal)?
Oportunismo do capitalismo norte-americano?
Última esperança para um povo desiludido dele próprio?




Todas as perguntas acima podem ser respostas para quem não acredita que o mundo possa mudar. Entretanto, e como o próprio Presidente Obama disse, "Yes it can". Sim, o mundo pode mudar, porque todos nós podemos sempre mudar.


Sou brasileiro, mas também sou cidadão de um mundo globalizado, no qual nenhum país está só. Por esse motivo, a eleição de um político para o mais alto cargo de uma nação, que não é a nossa, está sendo objeto de uma segunda postagem no "Lugar do Souto".


Estou consciente (estamos todos) de que é aos Estados-Unidos que a eleição de Barack Husseim Obama mais importa, mas quem vai negar que ela terá consequências em todo o globo? O simples fato de esse homem ser o novo presidente de um país como o dele, mostra que algo já mudou na mentalidade do povo norte-americano. Confesso que nunca pensei que hoje, 20 de janeiro de 2009, dia em que completo 62 anos, eu presenciasse ao espetáculo que presenciei.


Acredito que esse homem mestiço (negro, no conceito de lá), portanto sensível aos problemas das duas comunidades de que é originário, terá sensibilidade para entender as diferenças internas e, consequentemente, as diferenças externas e, assim, dar um pequeno passo no caminho da PAZ.


Acredito, também, que Barack Obama, com raízes em dois credos distintos, cristão e islâmico, terá conhecimento para entender uma das causas das guerras que hoje colocam os povos uns contra os outros. "Uma causa", eu disse, mas é melhor entender uma, do que não entender nenhuma.


Acredito que o novo presidente irá tentar trazer uma época diferente para o planeta terra. Se irá conseguir, só o tempo nos dirá.


Ressalto, porém, que não é a raça (ou as raças), nem os credos do novo presidente dos Estados-Unidos que devem ser destacados. É a sua competência para lutar contra as adversidades, a tenacidade, o jogo político e as promessas de campanha (que acredito sejam honestas) que conferem a confiabilidade ao grande político que ele é. Barack Husseim Obama conseguiu chegar ao local a que chegou e eu torço para que a esperança de bilhões de pessoas deixe de ser esperança e se concretize.
Boa sorte para ele, para o país dele e para todos nós.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O ECLODIR DAS PAIXÕES NO PARQUE HOTEL DE MONTEVIDÉU

(Continuação)
No início da noite, a orquestra havia aberto o baile com “My sweet” e, no exato momento em que chegavam os meus companheiros de mesa, ela desmanchou os corações carentes com “I can’t believe that you’re in love with me” – “Que noite que terei hoje”, pensei naquele instante! – Ah, se eu pudesse prever as sucessivas desgraças que o primeiro encontro com os Leicester me iria trazer, teria saído correndo do baile do Parque Hotel, do próprio hotel e, até mesmo, de Montevidéu. Os acordes da orquestra e o vozerio que já se fazia ouvir eram como que o coro de uma tragédia grega anunciando o meu triste porvir.

Ao levantar, após os cumprimentos já referidos, afastei as três poltronas ainda livres e esperei que cada um escolhesse a que queria ocupar. Para meu desalento, Sir Charles Northumberland ofereceu a Alexandra a que estava mais longe de mim, tendo ele e Timothy escolhido as que estavam ao meu lado direito e esquerdo, respectivamente. Mais uma ironia do Destino: no primeiro encontro, Timothy ocupou o lado do coração e Alexandra, sentada à nossa frente, vigilante e sedutora, mais parecia Eros com a sua flecha certeira do que a Afrodite na qual, pouco a pouco, iria se tornar.


Por cortesia, ofereci uma taça do Veuve Clicquot Ponsardin que já estava à mesa, em primeiro lugar, para Alexandra e, em seguida, para o cônsul britânico. Quando eu estava prestes a perguntar ao jovem Timothy se gostaria de um ponche de maçã, ele, quase me cegando com o brilho do verde dos seus olhos que cintilavam por detrás da máscara dourada, estendeu a taça que restava e, num inglês vitoriano, nada compatível com o falado em julho de 1932, diz, – “My dear sir, in less than two hours I shall be eighteen years old, and I am quite sure that my mummy alouds me to start drinking wine and spirits at this very moment”. Tendo notado o meu embaraço, Alexandra acenou afirmativamente e desabrochou uma sibilina gargalhada, o que me deixou ainda mais constrangido.

Enchi a taça que permanecia estendida e fiz um brinde antecipado aos 18 anos do Conde de Leicester e aos meus 40, informando aos presentes que o meu aniversário natalício também iria ocorrer no dia 10 de julho, ou seja, dentro de escassas duas horas, a partir daquele momento.

Mais duas garrafas do maravilhoso champagne foram encomendadas pelo cônsul e, antes mesmo que eu sorvesse os últimos goles, Alexandra, descumprindo todas as regras vigentes, estendeu-me os seus sedosos braços de alvura digna de um quadro renascentista e perguntou, no seu também deslumbrante inglês que doravante traduzirei, –“Não me diga que vai permir que a orquestra termine "I can’t believe that you’re in love with me” sem me tirar para dançar? Seria um crime para os demais presentes a este baile, que perderiam a chance de ver o belo par que faremos!”

O salão do Parque Hotel parecia todo ele girar quando enlacei a cintura daquela mulher misteriosamente bela e, mais ainda, quando senti o farfalhar das plumas da sua máscara junto à minha veneziana. E o mundo inteiro girou quando os seus seios levemente desnudos roçaram o meu smoking, tão bem passado por aquela outra misteriosa mulher que o entregara no meu quarto ao cair da noite.
Estava jogado o feitiço.


E não foi uma, mas duas ou três melodias que, em silêncio, dançamos, estando eu entontecido pelo perfume de Alexandra, com a ajuda do champagne bebido. De longe, duas flechas verdes estavam prontas a serem disparadas...

sábado, 15 de novembro de 2008

D. MANUEL II DE PORTUGAL - ANIVERSÁRIO NATALÍCIO

No dia 15 de novembro de 1889, nascia em Lisboa o Infante Dom Manuel, filho d'El-Rei Dom Carlos I e da Rainha Dona Amélia e que, com apenas 18 anos, foi levado pelos percalços do destino, a assumir o trono de Portugal, com o título de Dom Manuel II. A história tem sido, algumas vezes, injusta com este Rei, que foi o último da saga dos quase oito séculos da monarquia lusa, mas alguns historiadores mais recentes têm tentado transmitir a verdade sobre o caráter do jovem monarca.

Se Dom Manuel de Bragança cometeu erros, eles foram causados pela inexperiência dos seus 18 anos e por alguns maus conselheiros, mas em nenhum momento foi fraco como Chefe de Estado ou fútil, como homem. Era um apaixonado pelo seu país e pelo povo português, que tanto o injustiçou.

A seguir, reproduzo um trecho do livro (ainda não concluído, nem, obviamente, publicado), "Dom Manuel II - o voo solitário das saudades de um rei". Em tom autobiográfico e num delírio visionário, o autor percorre a vida do monarca, desde o nascimento, em15 de novembro de 1889, até o dia da morte, em 2 de julho de 1932.




"[Oiço choro de criança, risos e vozes femininas que me são ainda confusas… “É um Infante, é um Infante”…, oiço-as agora com nitidez dizer. São quase seis da manhã, seis horas menos exactos quinze minutos e começo a reconhecer e a identificar cada pessoa, primeiro, pelas vozes, depois, pelo que delas me foi dado ver em antigas fotos da família. Lá está D. Alice Costa, parteira da família real! Destaca-se entre todas pela brancura do avental sobre o vestido negro, a segurar uma criança nos braços e a mostrá-la aos presentes, orgulhosa, tal qual timoneiro que acabara de conduzir o barco a porto seguro. A ajudá-la, vejo uma criada que ainda lembro chamar-se Catherine Ijel e que sei ser luxemburguesa. Ao lado de ambas, a condessa de Sabugosa, aia da rainha. Criadas mais novas a apoiá-las no seu trabalho desdobram-se em cuidados de limpeza, enquanto correm em alvoroço de um lado para o outro. Em meio àquele reboliço, identifico, por fim, a mamã, tão bonita e tão nova, sorridente em sua cama, plácida, ainda que extenuada, como qualquer mãe que dera há pouco à luz um filho, em nada nisso distinguindo-se rainhas ou não-rainhas.

Se pouca dúvida tinha, doravante nenhuma mais tenho: sou eu aquela criança que acabara de nascer. Vejo-me recém-nascido. Abro os olhos pela primeira vez. Mulheres de preto, vestes negras em todo o quarto. Não percebo porque todo este negro. Um bom sucesso é ou não uma ocasião de grande regojizo? Por que ou por quem, então, será o luto? Ah, é claro, já me lembro, a corte cumpre nojo pesado quer pela morte do Infante D. Augusto, falecido a 26 de setembro, quer pela do seu irmão, o Rei D. Luís, meu avô, ocorrida há menos de um mês e, além disso, o preto — luto ou não — foi, é e também no futuro devê-lo-á ser, a cor favorita das mulheres do meu país.]"

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

EROS ET AGAPE


" "Eros" et "agape" – diversitas et unitas Amori inter virum ac mulierem, qui non ex cogitatione nascitur neque ex sola voluntate verum certo quodam modo homini imponitur, Graecia antiqua nomen tribuit eros. Iam in antecessum fatemur Vetus Testamentum Graecum bis tantum, Novum contra Testamentum numquam vocabulum eros adhibere: tribus enim ex vocibus Graecis ad amorem spectantibus — eros, philia (amicitiae amor) et agape — Novi Testamenti scripta concedunt quoddam fere privilegium extremo nomini, quod in Graeca lingua potius ad marginem remittebatur. Quod amicitiae ad amorem (philia) attinet, is repetitur et in Ioannis Evangelio altiorem accipit significationem, quatenus necessitudinem inter Iesum eiusque discipulos declarat. Haec exclusio verbi eros atque simul novus amoris prospectus qui per vocem exprimitur agape eo usque quasi exclusam sine dubitatione in christianae vitae novitate aliquid necessarium omnino ad amorem comprehendendum designat. [...]"



Todos os que me lêem sabem das minhas convicções. Nesta postagem, sem nenhum apelo religioso, nem com a intenção de influenciar a filsosofia humanística ou teológica de quem quer que seja, gostaria de sugerir a leitura da Encíclica "Deus caritas est", publicada no dia de natal de 2005 por Sua Santidade o Papa Bento XVI. Magnífica peça filosófica. A encíclica desse grande e muito sábio teólogo serve de alento a todos os que estiverem passando por um momento de dúvida quanto aos valores da nossa sociedade, aos que estiverem perdidos nos labirintos do ódio, da revolta, da inveja e da incompreensão. Sempre que sinto o inconformismo feroz ou a desilusão descabida quererem aflorar no meu espírito, leio uma ou duas páginas da "Deus caritas est" e durmo em paz. Afinal, como diz Sua Santidade, Deus é amor e Deus está em todos nós, portanto, todos somos eros e agape e devemos viver plenamente essa "unidade dual," esse mistério do Criador, entranhado em nós, suas criaturas.
A encíclica foi redigida em latim, mas é possível encontrá-la em vários idiomas, inclusive, o português

sábado, 8 de novembro de 2008

MÁRIO NUNES - PINTOR DO RECIFE E ARREDORES


Ontem à noite, enquanto folheava um livro, que tenho comigo aqui em Brasília, sobre retrospectivas de pintores famosos organizadas por entidades governamentais, confirmei o que já há muito sabia: as entidades culturais oficiais do Recife são ingratas com os seus artistas e têm memória curta em relação à arte daqueles que fizeram sucesso em um passado não tão distante assim.

Pensei, por exemplo, no pintor Mário Nunes, que talvez alguns dos leitores deste blog não tenham conhecido, mas que foi um dos fundadores da Escola de Belas Artes do Recife, além de excelente cenógrafo dos teatros recifenses e um dos artistas convidado para pintar o Teatro do Parque, quando ele foi inaugurado.

Mário Nunes, que nasceu no Recife em 27 de outubro de 1889 e morreu na mesma cidade em 1982 (se não me falha a memória)(corrigi a data anterior, de 1962 para 1982, conforme comentário abaixo), é considerado um impressionista tardio, tendo a sua obra a marca de retratar as paisagens pernambucanas, os locais e os fatos marcantes do Recife e dos seus arredores. O mestre influenciou a arte de muitos dos seus alunos, hoje pintores de renome da cidade do Recife e foi contemporâneo, entre outros, de Murillo La Greca, mas não obteve a mesma notoriedade deste também excelente pintor.


Algumas galerias ainda tentam divulgar os quadros do mestre Mário Nunes, mas é minha opinião que o Departamento Cultural da Prefeitura do Recife deveria promover uma mostra com as inúmeras telas ainda existentes e que se encontram tanto em galerias de arte, quanto em coleções particulares. A ocasião seria excelente para promover um grande artista pernambucano, contar a sua vida com fotos e textos, além de rever, através das obras, um pouco do passado de um Recife que não existe mais. Só de igrejas pernambucanas, por exemplo, ele pintou mais de 40 telas, sem contar com inúmeras outras que mostram paisagens já alteradas pelo progresso.

Neste ano de 2008, um famoso marchand do Recife lançou um livro com as igrejas pintadas por Mário Nunes, ao mesmo tempo em que exibiu as telas originais. Excelente evento, que merece parabéns, mas é preciso que as entidades oficiais também promovam o que temos de melhor.


Desde muito jovem que me sinto atraído pelas telas de Mário Nunes, pelo seu toque impressionista tropical, pelo amor com que retratou a nossa terra. Acho mesmo que passei toda a vida olhando e me deixando impressionar por uma tela do pintor que emoldurava a sala de jantar da casa dos meus pais e que me acompanha até hoje. Deixo aqui a lembrança, em tom de apelo, às entidades culturais da nossa cidade, para promovem um grande ciclo de mostras de pintores recifenses do passado e do presente, iniciando para o mestre Mário Nunes. Vamos prestigiar o que é nosso, divulgar os artistas que amaram a cidade do Recife e demonstraram o amor através da arte.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

WELCOME MR. PRESIDENT

O Lugar do Souto tem por princípio não publicar postagens de cunho político, não manifestando apoio a qualquer partido ou ideologia, seja no âmbito nacional, seja no internacional.

Toda pessoa que vive em sociedade é uma pessoa política. O resultado de uma eleição em um país como os Estados-Unidos da América que, agradando ou não, exerce o controle econômico do planeta, sempre nos afeta. Foi, portanto, com grande interesse que passei esta madrugada acordado até às 5:30h daqui de Portugal, acompanhando a apuração voto a voto.


Já segui inúmeras eleições nos E.E.U.U., algumas com muita paixão, outras, sem qualquer interesse. A eleição de ontem, porém, ultrapassou a tudo o que já vi na política da potência norte-americana. Tenho a certeza de que todos vivemos um momento único e os dias 4 e 5 de novembro de 2008 irão marcar a história do mundo ocidental. Estou feliz pelo resultado das eleições e por ter tido a chance de presenciar essa mudança que nos afeta a todos, mesmo aos mais esquecidos.


Parabéns ao povo dos E.E.U.U. e parabéns, Presidente Barack Obama. O mundo confia em você. Sorte!

sábado, 25 de outubro de 2008

INFORMAÇÃO BOMBÁSTICA PARA UM HÓSPEDE DO PARQUE HOTEL



"The Times/1930/Obituary/
Earl EDWARDS OF LEICESTER
Earl Edwards of Leicester (1855-1930), son of Late
Earl Charles Timothy of Leicester and Elizabeth of Leicester.
Source:
Obituaries The Times, Monday, Apr 14, 1930.
Obituary

Earl EDWARDS OF LEICESTER
PUBLIC SERVICES TO ENGLAND

Earl Edwards of Leicester, Lord Colonel of Banffshire, suddenly died at his residence, 9, Rothesay-road, London, early yesterday morning. He had been mysteriously confined to his house for the past two months, but until a week ago he had been able to attend to his many important public and business interests. He was in his 75th year. The death of Earl Edwards is under police investigation taking into account the possibility of not normal causes.
Earl Edwards of Leicester was married to Alexandra Mary, Countess of Leicester and the couple has a single son, Timothy Edwards, from now, Earl of Leicester."



Há dois dias recebi a notícia acima, enviada por uma amiga do Recife que, entre muitas atividades, é ainda detetive nas horas vagas. O texto foi retirado do obituário do jornal britânico The Times, de 14 de abril de 1930.

O fato de a Condessa Alexandra ser viúva, todos já sabíamos da leitura* do diário de Anacleto Brito Leão, as duas novidades são 1º) que a morte do velho conde foi colocada sob investigação policial e 2º) a grande diferença de idades entre Alexandra e o seu falecido marido (cerca de quarenta anos). Se aquela amiga detetive conseguiu descobrir esses fatos, sem dúvida que Anacleto Augusto também os devia saber, mas só a retomada da leitura do diário nos permitirá confirmar Infelizmente, amanhã estarei voltando, em serviço, à cidade de Bruxelas e não terei tempo para reiniciar a transcrição neste Lugar do Souto das aventuras ocorridas, em julho de 1932, no Parque Hotel de Montevideu e narradas por Anacleto no seu diário. Como Anacleto Brito Leão terá reagido ao saber do passado de Alexandra?
Questiono, também, se a informação agora conhecida, juntamente com os demais fatos ocorridos com Anacleto Augusto no Parque Hotel, terão sido do conhecimento de Raoval Berior, um cronista de segunda categoria que fazia carreira se intrometendo na vida das pessoas da sociedade do Recife da década de 1930. Será que Raoval Berior soube desses fatos?
Paciência! Um dia, todos iremos saber o que se passou naqueles tempos.
*Os leitores que não tiveram oportunidade de ler as postagens anteriores, é só percorrerem os títulos à esquerda do blogue e irem se inteirando dos fatos e dos personagens.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

BRUEGHEL EM BRUXELAS E IBSEN EM OSLO

O que é que um pintor flamengo do século XVI tem a ver com um teatrólogo norueguês do século XIX? Nada, que eu saiba!

















Exceto, talvez, 1) a admiração de Ibsen pela pintura de Brueghel, o Velho, 2) a genialidade de ambos e 3) o fato de que, nos últimos dias, eu estive em contacto com a arte dos dois.
Nesta sexta-feira, 3 de outubro, estou de volta a Bruxelas, depois de dias excelentes na antiga Christiania, hoje Oslo, para a qual me desloquei em serviço. A capital norueguesa surpreendeu-me, pois esperava encontrar uma cidade bem mais pacata do que ela realmente é, mas a impressão que tive foi de uma metrópole como qualquer outra que conheço. Discreta, como convém a uma senhora de 950 anos, Oslo alia a tradição à modernidade e, com uma simples caminhada, é possível cruzar tanto com uma juventude perfeitamente integrada no século em que vivemos, quanto com símbolos tradicionais da cultura nórdica.


A arte deixada por Ibsen está em toda a parte, nas grandes apresentações do Teatro Nacional ou em espetáulos encenados em teatros alternativos, sempre com alguma peça do autor em cartaz. Na noite da quarta-feira passada, fui correndo ao Teatro Nacional assistir a um colóquio (em inglês, não em norueguês) sobre a transcendentalidade da obra de Ibsen e, no final da palestra, um grupo alternativo teatralizou, em mímica, a influência da filosofia na vida e na obra do mestre. Ao sair do teatro, antes de voltar para o hotel, tomei um bom conhaque, para esquentar o corpo do frio que já se fazia sentir. Noite maravilhosa.




Quanto a Brueghel (que também assinava "Bruegel"), sempre me senti atraído pelas suas figurinhas que retratam o quotidiano flamengo do século XVI. No week-end passado, fui ao Museu Nacional de Belas Artes aqui de Bruxelas e depois de percorrer algumas salas, principalmente as que apresentam quadros de Brueghel, fui passear pela Rue Haute, no Maroles, onde ele viveu os seus últimos sete anos. Ao fim da tarde, fui fazer uma oração na igreja de Notre Dame de la Chapelle, onde Brueghel - l'Ancien (Brueghel, o Velho) casou e foi velado, quando de sua morte em 1569. Voltei para o meu flat em paz e cansado da andança.



Esses momentos de lazer e arte, em Oslo e em Bruxelas, fizeram muito bem ao meu espírito sonhador e permitiram esquecer um pouco a rudeza dos dias atuais.