terça-feira, 16 de setembro de 2008

1º ANIVERSÁRIO




Um ano e parece que foi ontem


Não poderia começar a postagem com uma frase mais estereotipada do que esta, mas é a única que me vem à mente.




No dia 16 de setembro de 2007, enfrentei as minhas próprias resistências e ousei. Sim, ousei ao criar um blog (ou "blogue", tanto faz), porque não tenho a arte de escrever por profissão e a informática está longe de ser a área em que tenho maior especialização. Entretanto, a vontade de dizer, a não sei quem, o que sinto, o que gosto e o que não gosto, foi mais forte do que as deficiências e o blog "Lugar do Souto" está de parabéns, festejando um ano de existência.




Conversamos, os leitores e eu, sobre os temas mais variados. Divaguei, voei nos meus sonhos, narrei as minhas viagens e, principalmente, lembrei o e do passado. Quantos aniversários o Lugar do Souto ainda terá para comemorar, não posso saber, mas estou feliz, porque hoje, 16 de setembro de 2008, ele completa um ano e já se tornou um pouco parte de mim. Obrigado a todos que me estimularam e continuam estimulando em não deixar a memória apagar as coisas boas que não merecem ser apagadas.

PARABÉNS "LUGAR DO SOUTO"



sábado, 13 de setembro de 2008

ANGES DE FLAMME ET DE GLACE - Pièce de théâtre



"[...] L'arrivée de Rimbaud en enfer".

"Rimbaud : La lune blanche luit dans le bois. De chaque branche part une voix sous la ramée… Ô bien-aimée ! L’étang reflète, profond miroir, la silhouette du saule noir où le vent pleure… Rêvons, c’est l’heure. Un vaste et tendre apaisement semble descendre du firmament que l’astre irise…"

Verlaine: Pâle étoile du matin, tourne devers le poète [...]".* a partir daí, inicia a narração de parte da vida e da obra de Rimbaud, patrimônios espiritual e cultural da humanidade.

No dia 30 de agosto passado fui ao Recife, entre outras coisas, para assistir, à estreia da peça de Moisés Neto. Confesso que não me arrependi. Revi amigos que não encontrava há muito tempo e tive, ainda, algum tempo para refletir, debaixo de uma árvore do fruta-pão toda florida, sobre os Rimbauds, Verlaines, Mathildes e Vitalies existentes em cada um de nós.

Por fim, fiquei feliz com o resultado que o diretor de “Anjos de Fogo e Gelo”, o consagrado José Francisco Filho, atingiu com o bizarro texto colocado em suas mãos. Trabalho muito difícil, tenho a certeza. O texto, como podem deduzir da abertura, é uma coletânea de poemas de Rimbaud e de Verlaine, juntamente com uma descrição livre, feita pelo autor, de fatos da vida dos dois, incluídos para facilitar a compreensão dos espectadores Os poemas também foram livremente adaptados à prosa, tentando tornar o texto mais acessível
.


Sempre foi dito que tanto ao dramaturgo, quanto ao poeta, se deve consentir liberdade de espírito e de texto e Moisés Neto, autor da peça Anjos de Fogo e Gelo, usou e abusou dessa liberdade
.
A fala inicial, reproduzida no início desta crônica, é um trecho da magistral “La Lune Blanche”, do poema “La Bonne Chanson”, de Paul Verlaine, colocado na boca de Arthur Rimbaud. O autor da peça imaginou o momento de uma suposta chegada do poeta ao inferno e,
Se o resultado está sendo conseguido, deixo a resposta ao público e à crítica.

O diretor, esse sim, deve ter feito das "tripas coração” para prender a plateia - como de fato prende - durante a quase uma hora de duração da peça, já que Rimbaud, o poeta, é denso e Arthur, o homem, complexo demais, para serem - poeta e homem - facilmente compreendidos pelo público do meu querido Recife, nem sempre aberto à poesia, ao teatro ou a comportamentos humanos.

De minha parte, mesmo não sendo crítico teatral, captei uma certa insegurança dos protagonistas masculinos, o que é bastante natural em estreias "impactantes", talvez fruto do receio natural da reação que o texto e as marcas poderiam gerar nos assistentes. Receio desnecessário, ao menos na estreia de 30 de agosto.

Considero um dos destaques da peça - não sei se fruto do texto criado pelo autor, se do trabalho do diretor - a força das duas mulheres presentes no palco,
Vitalie, mãe de Arthur Rimbaud e Mathilde, mulher de Paul Verlaine, que conseguem ser protagonistas de uma narrativa na qual seriam coadjuvantes.

Mathilde, numa excelente interpretação de Stela Maris Saldanha, conduz linearmente todo o texto, tornando-se o elo de ligação entre as narrativas. Graças à atriz, o texto ficou bem mais fácil para os leigos.

Vitalie, também muito bem interpretada, transforma em momentos de comicidade a dispensável maldade que lhe tentaram atribuir. Discordo, data venia, de quem pensou mostrar Vitalie Rimbaud como uma pessoa amarga, ambiciosa e cruel na relação com o filho. Vitalie era uma mulher da burguesia rural do interior da França na época de Napoleão III, no rígido século XIX. O filho era um gênio, que poderia ter nascido em qualquer lugar, ou em qualquer época. Impossível, portanto, para uma mulher comum como Vitalie, entender as idiossincrasias de Arthur sem as criticar, aceitar os seus atos, sem se magoar e conviver com excentricidades, sem as recriminar. Daí, porém, a ser uma mãe sem amor, só interessada, anos mais tarde, nos lucros nascentes de Le bateau Ivre e dos demais poemas, eu não concordo. Ainda bem que Ivonete Melo conseguiu minimizar (mostrando ingenuidade) a suposta ambição de Vitalie Rimbaud.

A música (muitíssimo bem escolhida) e a iluminação completam o texto e a direção. Parabéns ao autor, ao diretor, aos quatro atores e a toda a equipe, que estão levando ao Recife um momento mágico da vida de pessoas mágicas, em um espetáculo que poderá alçar voos ainda mais altos.

Às pesoas que estiverem no Recife e leiam esta postagem, sugiro que vão ao Teatro Barreto Júnior e apreciem o espetáculo, pois vale a pena sim senhor.





Por puro diletantismo, para matar o tempo, resolvi colocar o texto de Moisés Neto no idioma materno dos quatro personagens. Tarefa difícil devido ao "melting pot textual" que ele é. Tenho me distraído bastante e o “trabalho” tem contribuído para que eu possa melhor conhecer a obra dos dois poetas. O título em francês - "Anges de Flamme et de Glace" - não é meu, mas emprestado de Arthur Rimbaud, mesmo assim, por se tratar da versão em outro idioma de uma obra teatral, é bom estar registrado (na versão em francês, é claro), para evitar constrangimentos ulteriores.


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*Início do texto em francês de "Anges de Flamme et de Glace".

domingo, 17 de agosto de 2008

DAS VITRINES E DOS SEGREDOS DE UM RECIFE DISTANTE



























Um dia desses, lendo uma postagem do ótimo blog de Geraldo Pereira, voltei, em pensamento, àquele tão cantado Recife, distante no tempo, adormecido na memória, perdido para o presente. Senti, então, uma saudade enorme de uma porção de coisas, entre elas, das sorveterias que surgiram na cidade no início da década de 1960, numa época em que eu despontava de menino para meninote. Na verdade, acho que mais do que das próprias sorveterias, senti saudade mesmo foi daquele tempo. Das idas às sorveterias sim, mas principalmente, dos passeios vespertinos e noturnos, tão tranquilos e prazerosos, quando meu pai levava toda a família para "matar" o tempo e sentir a brisa fresca que soprava do cais do porto para o centro da cidade.

De vez em quando, antes ou depois de tomar sorvete, a minha irmã pedia para irmos ver as vitrines da rua Nova e ela poder sonhar com um vestido da "Etan", da "Sloper", ou da moderníssima "Cláudia", que não ficava na Rua Nova, mas q
ue apresentava o melhor da moda de então.
A mamãe insistia sempre em ver a vitrine da "Viana Leal" e admirar este ou aquele apetrecho que faltava em nossa cozinha e que, quem sabe, lá para o fim do ano, o dinheiro poupado daria para comprar. E as horrendas floreiras de louça, com um dragão em cada ponta? Como ela sonhava em ter uma, ou então aqueles castiçais de louça azul que iriam combinar com o vaso de flores da mesma cor. Para o meu desespero, um dia ela teve a ambos - os castiçais e a floreira - os quais, algures, ainda temos hoje.
Quanto aos vestidos sonhados por minha irmã, a mamãe, que tinha um jeito enorme para desenho e costura, mal chegava em casa reproduzia os modelos, aproveitava um corte de tecido sempre guardado e, no final de semana seguinte, lá ia a minha irmã ao cine Art Palácio ou ao cinema Moderno, de vestido novo, igualzinho a um daqueles das vitrines da "Etan", da "Sloper" ou da "Cláudia", fazendo inveja às amigas que não tinham mães tão prendadas. Bons tempos!
Ah sim, e ai de mim se eu contasse o segredo e dissesse a alguma das amigas dela que aquele vestido era cópia... !
O meu irmão e eu éramos sempre obrigados a uma passagem pelas vitrines da "Rialto" ou da "Confiança" (não a confeitaria, que ficava na rua da Imperatriz, mas a camisaria) para escolher o cinto ou o suspensório que poderíamos ganhar de aniversário. Às vezes, a opção mudava e era um sapato da "Clarks" que tínhamos de escolher. Não lembro de ter algum dia recebido os acessórios tão insistentemente escolhidos.


Voltando às sorveterias e aos consequentes sorvetes. Em uma postagem anterior (19 de dezembro de 2007) já falei de minha infância e do homem que passava pela rua onde morávamos com uma lata de sorvete na cabeça apregoando as suas delícias – aquelas sim, deliciosas no verdadeiro sentido. Os tempos, porém, haviam mudado e bom mesmo naquele início dos sessenta - onde os macacos continuavam macacos e gente continuava gente - passou a ser tomar sorvete na "Dudi", na distante (para nós) praia do Pina, ou na recentemente inaugurada "Xaxá", que ficava no início da rua Corredor do Bispo. Eu gostava de sorvete de cajá, a minha mãe, da novidade, sorvete de milho verde e o resto da família não abdicava do de baunilha, bem docinho e enjoativo.


Bom mesmo, porém, não era tomar sorvete ou ver vitrine, mas sim ser feliz com pessoas que hoje só estão nas minhas lembranças, ter uma vida inteira por ainda viver. Bom mesmo era o Recife ser uma cidade aonde os sabiás e os bem-te-vis ainda cantavam, na qual a fome e a miséria não deviam ser tão grandes assim, porque não se matava por fome, nem, pior ainda, por um celular ou por um tênis de marca. Bom mesmo era tomar sorvete sentado sem medo, à frente de uma sorveteria que ficava na praça 13 de Maio e da qual, por mais que me esforce, não consigo lembrar do nome!
Hoje, bom mesmo seria, apenas, não esquecer os nomes!
Será que esta manhã eu acordei saudosista? Quem, eu ???

sábado, 26 de julho de 2008

A QUEM PERTENCE O DIÁRIO DE ANACLETO BRITO LEÃO?







Há uns dois ou três dias, um velho amigo meu, teatrólogo pernambucano de renome, associou-se a alguns outros (e outras) amigos e repetiu aquela pergunta que não quer calar: "Os direitos autorais do Diário de Anacleto Brito Leão pertencem a quem? Eis uma pergunta que merece resposta rápida e, para que tudo fique bem claro, resolvi, em primeiro lugar, contar quem foi esse Anacleto, autor das memórias que vêm sendo publicadas, desde 27 de outubro de 2007, no nosso "Lugar do Souto".
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Anacleto Augusto de Albuquerque Brito Leão nasceu a 10 de julho de 1892 num típico engenho novecentista dos subúrbios do Recife. Filho, neto e bisneto de nomes tradicionais ligados, pelo lado paterno, à cultura canavieira de Pernambuco e, pela mãe, às melhores famílias da nobreza cafeeira de São Paulo: café com açúcar, uma boa mistura. A infância foi feliz, rodeada de mimos pela mãe e por duas tias paternas, solteironas convictas, que viviam no Engenho da Várzea desde o nascimento e que nele morreram com todas as unções da Santa Madre Igreja. Do pai, o Barão da Várzea, recebeu a típica educação dos senhores de engenho, autoritária, rígida e machista. Além de Anacleto, os Barões da Várzea (título recebido no Segundo Império), tinham uma filha, Maria Laudelina, oito anos mais nova do que o irmão.




Em agosto de 1909, aos dezessete anos, Anacleto Augusto seguiu para Coimbra, Portugal, onde se formou em Direito, com especialização em Direito da Família. Aluno brilhante e boêmio inveterado pareciam duas realidades inconciliáveis, mas, para ele, não foram, pois apesar de nunca ter tido problemas com os estudos, sempre foi frequentador assíduo das paródias conimbricenses. Conta-se que muitas donzelas perderam esse status por causa dos amores sentidos pelo seu físico sedutor, pelo doce acento do português falado no nordeste brasileiro e pelos réis brasileiros que ele gastava aos milhares.



A 1ª Grande Guerra retardou a volta ao Brasil e em 1914 seguiu para Lisboa, supostamente para especialização nos melhores escritórios de advocacia da capital lusitana. Tal não aconteceu, já que lá se envolveu com uma dançarina espanhola que quase o levou à ruína moral e financeira, depois de o pai, em 1917, ter cortado a polpuda mesada que lhe mandava de Pernambuco. Para sorte dele e azar dela, a febre amarela levou a belíssima espanhola "desta para melhor" e ele, finda a guerra, seguiu para Londres, onde se ligou a um escritório de importação de um dos inúmeros amigos do pai, reabilitando o respeito paterno, a saúde abalada e a carteira vazia.


Em junho de 1922, pouco antes dos trinta anos, Anacleto e Alaíde de Castro Mello eram os alegres noivos da quadrilha de São João do Engenho da Várzea. A partir do seu regresso ao Brasil, passou a gerir a parte jurídica do Engenho do pai e a aproveitar a vida no melhor estilo. Anualmente, viajava às estações de inverno da Argentina, com uma obrigatória passagem por Montevidéu, no Uruguai e, de dois em dois anos, regressava à Europa, onde deixara amigos, amigas e amores vários. A morte dos avós em São Paulo e das tias paternas acima citadas, conseguiram deixá-lo mais rico do que o próprio pai, visto ser o único neto homem e o herdeiro absoluto e adorado das titias nordestinas. Em 1932 (julho) durante uma das férias no Parque Hotel de Montevidéu, foi acometido de uma forte febre - que se julgou tifóide - com delírios que o levaram a afirmar que vira a capital uruguaia no futuro. Recuperando-se da febre e dos delírios iniciou o diário, interrompido, inesperada e inexplicavelmente, na Quaresma de 1939 (quem sabe se um dia não se descobre a razão).
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A falta de herdeiros diretos e a autorização cedida aos donos da Editora Imaginação, dos quais a adquiri, são a resposta à pergunta sobre os direitos autorais das memórias de Anacleto Brito Leão, que pertenciam à Imaginação e agora pertencem a este blog, que mais não pretende do que tornar do conhecimento dos fiéis leitores um pouco da vida, dos amores, das tragédias de um homem chamado Anacleto, que viveu em outra época e em outros lugares que certamente existiram tal como ele os descreveu (assim me garantiu a Imaginação ao ceder os direitos autorais).
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À Editora Imaginação deixo aqui os meus agradecimentos pela publicação periódica do Diário de Anacleto e prometo que ele ainda será objeto de inúmeras postagens (após o crivo da censura prévia).

domingo, 6 de julho de 2008

BAILE NO PARQUE HOTEL*

(Continuação)
Depois de muito procurar, finalmente encontrei a máscara que comprara no carnaval de 1930, em Veneza, e que havia deixado em uma das gavetas do baú guarda-roupa, daí não a encontrar nos armários do quarto. Examinei-a cuidadosamente para ver o seu estado e, ao confirmar que ainda estava nova, joguei-a ao lado da roupa de soirée que a misteriosa camareira havia, tão cuidadosamente, colocado sobre a cama.
Naquele momento, voltei a pensar na mulher e nas estranhas coincidências que ela me relatara. Não é muito lógico que nunca tivéssemos visto no Parque Hotel - onde eu e minha família sempre nos hospedávamos - uma camareira natural de Pernambuco, que afirmava ter nascido em terras contíguas ao Engenho da Várzea, que nos pertencia há mais de 100 anos. Ainda por cima, a camareira dizia filha de um casal de criados dos meu avós! Estranho demais, sem dúvida! Coincidência demais, também! Decidi, portanto, que iria esquecê-la, pelo menos durante aquela noite, pois, como prometera a mim mesmo, queria concentrar a atenção na soirée dançante, onde, em segredo, comemoraria o meu natalício.

Entrei no “quarto de banho”, fiz a higiene pessoal, vesti o smoking, coloquei no rosto a máscara que, modéstia à parte, me ficava muito bem, às 20h58 em ponto, fechei a porta do quarto e saí para o baile. Desta vez, nem havia sinal de Alexandra of Leicester no hall do segundo andar, nem o ambiente estava envolvido pelo seu perfume, como que me informando que ela não passara por ali na última hora. O silêncio era absoluto, apesar da festa que iria em breve começar.

¿“Planta Baja, señor?” O ascensorista já estava com a porta pantográfica aberta e eu nem dera por isso. “Si, si, por favor”, respondi, enquanto ele fechava lentamente a porta.

O grande salão do Parque Hotel, tantas vezes vazio nos meus sonhos, estava quase repleto e ainda mais iluminado do que sempre estivera. Só lamento que, por respeito à privacidade dos presentes ao baile, nenhum fotógrafo o tivesse captado assim. Os criados de mesa movimentavam-se em ziguezague cadenciado, a orquestra afinava os seus instrumentos e as mesas já estavam ocupadas em mais de 50% do total, principalmente pelos convidados, pois os hóspedes, não sei bem por qual razão, sempre chegam tarde às festas dos hotéis em que se encontram.
O maître perguntou se eu era Don Anacleto Augusto de Albuquerque Brito Leão, hóspede do quarto 27 e, após confirmação, encaminhou-me à mesa de número vinte e cinco, enquanto tagarelava dizendo que, quando ao final da tarde de hoje eu havia feito a reserva, conseguira o último lugar disponível na mesa, quando, ao final da tarde fizera a reserva. Antes de me acomodar, perguntei com quem dividiria a mesa e ele, desdobrando a longa lista dos presentes ao baile, disse que seria com Sir Charles Northumberland, Cônsul-Geral do Reino-Unido, com a Condessa viúva Alexandra Mary of Leicester e com o seu filho Timothy, Conde de Leicester, hóspedes, por mera coincidência numerológica, do quarto 25.

Nem sei como o meu coração não saltou peito afora, tal foi a aceleração cardíaca ao ouvir os últimos nomes! Evitei demonstrar a emoção que me assomou o espírito e fingi ouvir com atenção enquanto ele explicava que - “normalmente, as mesas são ocupadas apenas pelas primeiras pessoas que as reservam mas, devido ao grande número de hóspedes do hotel e de convidados especiais para aquela noite, a gerência havia perguntado a quem reservara antecipadamente se permitiriam que lugares vagos fossem ocupados. No caso da mesa vinte e cinco, a condessa havia dado autorização de ocupar o quarto lugar, mas ressaltara a exigência de querer que só fosse preenchido por um cavalheiro e hóspede do Parque Hotel”.

Pensei, a princípio, ser mais uma coincidência ocorrida no sábado 9 de julho, mas logo refleti que todos sabiam ser eu o único hóspede do sexo masculino sem companhia na temporada de inverno do Parque Hotel. Portanto, não foi coincidência!


Antecipando-me aos demais ocupantes da mesa, comandei ao escanção uma garrafa de Veuve Clicquot Ponsardin 1920 e me deixei levar pelos primeiros acordes da orquestra que acabara de abrir o baile como o grande sucesso do ano de 1932, “My Sweet”, em arranjo do original interpretado por Louis Armstrong. Às 21h30, quase todas as mesas estavam ocupadas, mas eu continuava a ser o único sentado à mesa vinte e cinco. De repente, como se tivessem saído do nada, deparei-me com os companheiros de mesa à minha frente. Levantei-me quase que com um pulo, cumprimentei aos três formalmente (em inglês, é claro) e disse simplesmente ao me apresentar - “Anacleto de Brito Leão, de Pernambuco, Brasil”.

Não me perguntem os leitores desta narrativa o que se passou naquele exato momento, pois o turbilhão em que estava a minha mente, com a ajuda da primeira taça do champanhe que eu havia sorvido, impossibilitaram de guardar com precisão o que ocorreu. Alexandra estava de braço dado a um elegantíssimo senhor que logo deduzi ser o Cônsul-Geral do Reino Unido e Timothy, a um
passo atrás, estava déguisé de "El Zorro", com o detalhe de uma máscara dourada que ressaltava, de maneira indescritível, o brilhante verde escuro do seus olhos. Alexandra parecia vinda de outra época, de um passado de mais de trinta anos, trajando um vestido cor de rosa, cintado à moda da Belle Époque, com leque e máscara de plumas brancas*. Se o traje era mesmo esse, já não posso afirmar, s
ó o que sei é que ela estava linda como eu nunca dantes havia visto outra mulher! (Com o devido respeito por Alaíde, tão longe, em Pernambuco).

Naquele exato momento, a orquestra começou tocando outro sucesso dos últimos tempos, “I can’t believe that you’re in love with me”:

http://www.youtube.com/watch?v=ykP8Wtcg86w

A terceira coincidência do dia 9 de julho de 1932, véspera do meu aniversário de quarenta anos!
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*até parece que eu escrevo sobre o mesmo tema de um tal Raoval Berior, cronista social quase desconhecido do Recife, mas que faz algum sucesso - pasmem - com notas jornalísticas sobre o vestuário das senhoras e senhorinhas e sobre eventos mundanos da capital pernambucana, sempre com alfinetadas sobre as pessoas da sociedade! A que ponto chegamos e a que ponto chegou o nosso jornalismo!.
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*Continuação das memórias de Anacleto Augusto de Albuquerque Brito Leão, postadas em 27 de outubro, 3 e 11 de novembro de 2007 e 23 de fevereiro de 2008.

terça-feira, 17 de junho de 2008

"C'ÉTAIT AU TEMPS OÙ BRUXELLES BRUXELLAIT"




Desta vez, a vinda a Bruxelas está sendo um autêntico "bate e volta". Cheguei no domingo, dia 15, e amanhã, dia 18, já estarei voando para Lisboa e depois, Brasília.


Sempre que estou aqui, vou ao Bozar (Palais des Beaux-Arts), à procura do que eles apresentam de bom. Hoje, ao cair da noite, fui e encontrei a exposição "Les collections royales d'Angleterre - De Bruegel à Rubens". Pela primeira vez, as coleções de pinturas flamengas pertencentes à Coroa Britânica atravessaram o Canal da Mancha e estão sendo exibidas em Bruxelas. A exposição está centrada nas pinturas da Flandres dos séculos XV ao XVII, compreendendo obras primas de Pieter Bruegel, o Velho, Rubens, Van Dyck, Hans Memling, entre outros.


Fiquei encantado com a contraposição entre obras de um mesmo mestre - pertencentes a coleções ou museus distintos, colocadas lado a lado, para que possam ser apreciadas conjuntamente. Por exemplo, o "Recenseamento de Belém" (acima), está ao lado do "Massacre dos inocentes" (abaixo), ambas de Bruegel, o Velho. A primeira tela pertencente à coleção de Sua Graciosa Majestade e a segunda, a um museu de Bruxelas. Os dois quadros ilustram magistralmente a inserção de cenas bíblicas nas paisagens cobertas de neve das vilas da região do Brabante. O fato de as telas estarem expostas conjuntamente permite a análise dos detalhes comuns, a observação das diferenças e a compreensão da técnica utilizada.


Bruxelas, porém, não é só museus, exposições, concertos e concursos musicais, é muito mais.


Bruxelles "bruxellait" na época cantada por Brel e Bruxelles "bruxelle" ainda hoje (não tentem traduzir o verbo, porque ele, oficialmente, não existe). As ruas insólitas do Marolles (bairro já mencionado em outras postagens), com esquinas românticas e pracetas improvisadas; a feira semanal da "Place du Châtelain", transformada em local de encontro das elites intelectual e artística e onde se degustam duas ou três (ou algumas mais) taças de vinho, sempre acompanhadas de uma porção de queijo artesanal; os brocantes dos fins-de-semana; a maratona de jazz do meio da Primavera; os passeios domingueiros nos parques verdíssimos com vários lagos de visão tranquilizadora. Tudo isso é Bruxelas. E mais, muito mais, para se ver ou fazer, dão a certeza de que Bruxelas brilhava na letra da música de Brel e brilha ainda hoje aos olhos dos que a sabem ver e amar.


Nada, nem ninguém em particular, me faz gostar de Bruxelas. Entretanto, pelo todo especial que ela é, eu gosto de estar em Bruxelas.

sábado, 7 de junho de 2008

A PRIMEIRA CRÔNICA DE RAOVAL BERIOR




Heureca! Esta é a única exclamação com que posso começar a postagem de hoje. Os leitores deste blogue devem lembrar que, em 8 de março deste ano, publiquei uma crônica que encontrei escondida entre teias de aranha e misteriosos alfarrábios de papel amarelado de um jornal chamado “Memória”, tão ímpar e desconhecido quanto o cronista que a escreveu, Raoval Berior, ambos de um Recife e de um tempo que, se um dia existiram (Recife e o tempo), já não existem mais.

Raoval Berior, todos sabem, começou a publicação de suas crônicas em dezembro de 1930 e, heureca de novo, encontrei a primeira crônica que o periódico Memória publicou com o título “Nem só revoluções nos trouxe 1930” !


Transcrevo a seguir, com a grafia original, o primeiro texto desse cronista de nome tão estranho, que me surpreendeu não só pela ousadia do título, em uma época de exceção, mas também pela intimidade que o autor demonstrava ter com o poder existente:


"Nem só revoluções nos trouxe 1930

Permitam as excelentíssimas senhoras e senhorinhas, leitoras deste Caderno Social do nosso periódico “Memória”, que não é o maior mas é o melhor e o mais crítico de nossa sociedade, que este humílimo periodista (se não de direito, ao menos de fato) adentre as vossas residências todas as manhãs de domingo a partir desta data, 14 de dezembro. Se me dirijo apenas às senhoras e senhorinhas é porque os cavalheiros da Mauricéia de hoje estão mais preocupados com a política (que fervilha como nunca), com o football e com as polacas dos arredores da Rua da Palma do que com os acontecimentos sociais de relevo, a moda importada de Paris ou os chapéus cuidadosamente elaborados pelas nossas chapeleiras para adornar as encantadoras cabecinhas de suas futuras esposas. Portanto, senhoras e senhorinhas, aos domingos (com a devida licença dos vossos noivos e maridos) este cantinho do nosso periódico será exclusivamente dedicado às gentis leitoras.


Faltam 16 dias para que 1930 chegue ao fim e não sei se deixará saudades... mas isto não é assunto para a nossa crônica. Cerro os olhos para rever o que de importante nos aconteceu durante este anno e não quero lembrar do dia 26 de julho, nem de confeitarias, nem, muito menos, de assassinatos ocorridos dentro delas. quero mesmo é recordar dias de glamour e o dia 22 de maio foi, entre outros, um dos mais importantes para a nossa cidade, não só em 1930, mas nos últimos tempos.

Na tarde de 22 de maio, antes de apanhar o bonde no Livramento para ir, com uma das minhas irmãs, ao Campo do Jiquiá, ainda consegui ouvir as sirenes dos navios e o carrilhão do Diário de Penambuco tocando e foi aí que comecei a ficar deslumbrado... Já era noite quando vislumbrei aquela enorme baleia se movendo no ar, aquele navio avoando nos ares (com a devida licença do poeta Ascenso Ferreira) e buscando a torre de atracamento. Era o Graff Zeppelin. Ao acenderem os faróis de popa e de proa tivemos a exata dimensão da aeronave, que mais parecia vinda de outros mundos do que do planeta Terra. Confesso que me arrepiei todinho e nem prestei muita atenção quando uma macaibeira foi pelos ares depois de, por engano, um dos cabos do zeppelin ter sido amarrado ao seu tronco.

A fidalga acolhida que o Governo do Dr. Estácio Coimbra prestou ao comandante Hugo Eckener, a Sua Alteza Real o Infante de Espanha e aos demais passageiros foi digna da cidade e do povo altaneiro que somos. Ainda lembro o orgulho do Dr. Gilberto Freyre, secretário particular do senhor governador Coimbra, ao se dirigir, como primeiro cidadão brasileiro, àquelas autoridades. Depois da recepção oficial, fui um dos privilegiados que pôde apreciar o magnífico salão de festas, a sala de leitura e a sala de jantar do monstro voador atracado no Jiquiá.

O único fato menos prazeroso daquela visita ao Campo do Jiquiá foi a dor-de-cabeça que fiquei por causa dos estrondos do motor da aeronave. Nada que não tivesse sido resolvido com uma ida à pharmácia do bairro de São José e com duas cafiaspirinas, que mandaram o mal-estar para os ares, tal e qual a macaibeira.

Este anno quase findo também nos presenteou com outra modernidade de ficar de queixo caído: a sala de espectáculos do Parque inaugurou, no dia 24 de março, o cinema sonoro. Eu estava lá e nem acreditava que podia ouvir as próprias vozes de Corinne Griffith e Victor Varconi, no filme A Divina Dama. A minha mãe chorou tanto que teve de sair para os jardins para tomar um pouco de ar fresco.

Em 1930 fiquei triste quando o "Helvética" da rua da Imperatriz mudou de nome e de atividade, passando a ser o "Centre Goal", que de centro de diversões não tem nada ou quase nada. Sugiro ao Dr. Lauro Borba, nosso ilustre prefeito, e também ao Interventor Carlos Lima Cavalcanti que dêem um saltinho no tal "Centre Goal" e vejam o que por lá se passa... A rua da Imperatriz não é mais a mesma...

Recife, 14 de dezembro de 1930.
Raoval Berior"

sábado, 17 de maio de 2008

LA BRUXELLES DE RIMBAUD ET LES RESTAUX D'AUJOURD'HUI




"Jadis, si je me souviens bien, ma vie était un festin où s'ouvraient tous les coeurs, où tous les vins coulaient.
Un soir, j'ai assis la Beauté sur mes genoux. - Et je l'ai trouvée amère. - Et je l'ai injuriée.
Je me suis armé contre la justice.
Je me suis enfui. Ô sorcières, ô misère, ô haine, c'est à vous que mon trésor a été confié!" *

O que é que a conturbada presença de Rimbaud em Bruxelas, na década de 1870, tem a ver com os restaurantes de hoje da cidade? Nada, absolutamente nada, é a resposta. Resolvi, entretanto, escrever esta crônica/postagem sobre ambos os temas, talvez para economizar letras, talvez por falta de idéias.

Para começar, ressalto que o título desta postagem, em francês, utiliza a abreviatura coloquial de “restaurants” - que também se pode grafar “restos” - e acrescento que a referência aos "restaux" será apenas aos seus nomes e não à qualidade da comida ou à relação qualidade/preço. Explicação dada, passemos ao que interessa.


Estou, mais uma vez, em Bruxelas e aproveitei a noite de ontem, sexta-feira, para jantar com um grupo de amigos dos velhos e dos novos tempos. Durante o jantar, alguém comentou a frequente ocorrência de nomes fora do comum dados aos restaurantes da cidade. Estávamos no “Bonsoir Clara” e resolvemos disputar o jogo de quem encontraria o nome mais bizarro, pelo menos para os padrões tradicionais. O jantar foi muito divertido e a brincadeira durou até o cafezinho Tal como muitas outras coisas nesta cidade, a escolha dos nomes dos restaurantes tende ao insólito - alguns leitores mais atentos devem lembrar da postagem, publicada em 1º de dezembro de 2007, sobre as ruas insólitas de Bruxelas.

Eis os nomes vencedores:
"Ma folle de sœur",
"Bleu de Toi",
"De Ultieme Hallucinatie",
"Eatcetera",
"Bonsoir Clara"
"Vert de Gris",
"L'O de Gamme",
"Le Hasard des Choses",
"La Quincaillerie",
"Rouges Tomates",
"Au Boeuf Gross Sel".

O "De Ultieme Hallucinatie" ocupa uma maravilhosa construção Art Nouveau, mas os preços são altos para o meu padrão. Bruxelas tem, sem nenhuma dúvida, uma vasta gama de bons restaurantes e aqueles de cujo nome lembramos são, além de excelentes, acolhedores e com um ambiente convidativo a um agradável serão. O vencedor entre os que têm nomes exóticos, "Ma Folle de Soeur" (literalmente, "A Louca da minha Irmã") é o meu favorito tanto pela comida, quanto pelo preço, mas também gosto muito do antigo "La Quincaillerie", onde sempre volto e recordo a primeira vez em que lá estive, no início da década de 1990, com um grande grupo, incluindo o meu amigo pernambucano - médico, pintor e muito mais - Lauro Marinho.
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Hoje, sábado, 17 de maio de 2008, resolvi sair à procura dos locais mais marcantes da presença de Arthur Rimbaud na cidade. Comecei pelo Ancien Hôtel Liègeois (atual Saint Germain), de lá passei pela Casa “Victor Hugo”, no número 4 da Place des Barricades e, em alguns minutos, estava no Musée de la Brasserie, antiga Maison des Brasseurs, no número 10 da Grand Place. Que emoção, ao imaginar que ali, em 1873, Verlaine e Rimbaud tomaram grandes pileques!
Dei um salto na história dos dois poetas e parei em frente ao atual Hotel Amigo, antiga prisão de mesmo nome, na qual Verlaine cumpriu pena após ter baleado o jovem e irrequieto Arthur. Em seguida, respirei fundo e meditei ao lado do prédio onde funcionou o hotel À La Ville de Courtrai, cenário do trágico ato acima citado. Fui, por fim, à Passage 44, no mesmo local onde existia o Hospital Saint-Jean, para onde o poeta foi levado por Verlaine e a mãe, para retirarem a bala e fazer curativos.

"Moi! moi qui me suis dit mage ou ange, dispensé de toute morale, je suis rendu au sol, avec un devoir à chercher, et la réalité rugueuse à étreindre! Paysan!
Suis-je trompé? la charité serait-elle sœur de la mort, pour moi?
Enfin, je demanderai pardon pour m'être nourri de mensonge. Et allons.
Mais pas une main amie! et où puiser le secours?"
*


* Excertos de "Une Saison en Enfer" de Arthur Rimbaud.

sábado, 3 de maio de 2008

"CORRIENTES TRES CUATRO OCHO"

É início do Outono no hemisfério sul e as já habituais reuniões de trabalho me trouxeram de volta a Buenos Aires, que está mais fria do que o normal para esta época do ano, mas com o sol brilhando radioso. O bom clima faz com que a cidade apresente-se mais encantadora do que sempre é. A crise econômica que permanece na Argentina não tirou a beleza de Buenos Aires, nem espantou os turistas. As ruas estão repletas desde de manhã cedo até alta madrugada, seja no centro - na conhecida Calle Florida -, seja em Palermo - bairro boêmio-, seja na Boca, seja nos restaurantes de Puerto Madero. Enfim, em todos os locais Buenos Aires é uma festa para os turistas. E como ela é linda!


As livrarias em Buenos Aires são outra atração a não perder, e as promoções permitem adquirir excelentes livros dos melhores autores argentinos a preços impossíveis de se conseguir no Brasil. Ultimamente, tenho me distraído com Ernesto Sabato.




A arquitetura portenha é uma clara demonstração do apogeu da cidade, de uma época onde Buenos Aires rivalizava na cultura, na arte, no luxo e na vida mundana com Paris, Berlim ou Londres. Cito como referências arquitetônicas, entre muitos, o Teatro Colón (na foto), o Centro Naval, as Galerias "Pacífico", o Círculo Militar ou o Ministério das Relações Exteriores (Palácio San Martin). A sede da chancelaria argentina ocupa aquele que já foi símbolo da riqueza das famílias portenhas, o Palácio Anchorena, construído entre 1905 e 1909, pelo arquiteto Alejandro Christophersen, a pedido de Mercedes Castellanos de Anchorena e que foi local de grandes recepções sociais até ser adquirido pelo Estado em 1936. No Palácio San Martin trabalha-se e inunda-se em arte.


Não tive tempo, até agora, para ir a uma casa de tangos e, mesmo se tivesse tido, não sei se teria ido, pois o trabalho me tem deixado estafado e, além disso, jantar sozinho não é lá muito agradável. Há certas coisas que ainda não fiz na vida, e começo achando que não farei mais, por exemplo, ir a uma casa de tangos em Buenos Aires, ao sambódromo no Rio de Janeiro, ou a um restaurante com show de flamenco em Madrid. Entretanto, mesmo sem conhecer muitos tangos e ser completamente desafinado em qualquer ritmo, esta tarde dei por mim caminhando e cantarolando um velho tango, sucesso desde meados da década de 1920. “Corrientes três cuatro ocho,/ segundo piso, ascensor./ No hay porteros ni vecinos, /adentro, cocktail y amor...”:

http://www.paixaoeromance.com.br/o_tango/amedialuz/amedialuz.htm

Se algum dia houve tango, cocktail e amor no número 348 da Avenida Corrientes, há muito tempo que deixou de haver, porque o prédio tem a aparência de ser, há largos anos, ocupado por insípidos escritórios comerciais. Pelo menos, colocaram, por cima do horroroso semáforo, um lampião sugestivo e uma placa que recorda os versos de “A media luz”.



http://www.youtube.com/watch?v=VIic8BQlZAc


Depois de ouvir Libertad Lamarque, decidi, vou jantar a uma casa de tangos e tomar um bom vinho da terra! Não será com certeza no número 348 da Corrientes, mas será em qualquer outro lugar, desde que ... a media luz...





Fazer compras, para quem gosta e tem tempo, ainda é conveniente para os brasileiros, mas os preços estão subindo a cada dia. Aos que ainda não foram e pretendem ir até Buenos Aires, não deixem de visitar as Galerias "Pacífico", onde se faz compras em meio a uma grande beleza.
Confirmem no vídeo a seguir:


 

Buenos Aires, 30 de abril de 2008.

domingo, 20 de abril de 2008

QUEM FOI RAOVAL BERIOR ?


Desde a transcrição no Lugar do Souto (8 de março 2008) da crônica social de Raoval Berior, publicada em um periódico da cidade do Recife, em 30 de outubro de 1932, que não param de me fazer perguntas indagando sobre aquele desconhecido cronista de uma sociedade que não existe mais. As inúmeras pesquisas que fiz permitiram chegar aos seguintes dados:
Em 1919, a repentina morte do senhor Berior mudou radicalmente a vida da família. A loja que os sustentava passou para o controle dos maridos das duas filhas mais velhas e os cunhados de Raoval, que detestavam os seus modos peculiares, não descansaram enquanto não o expulsaram de casa e da redondeza.

Raoval Berior era o terceiro filho de um casal emigrado do Líbano que chegou ao Recife (Brasil) na década de 1880.






Raoval nasceu em um amplo sobrado por cima da retrosaria do pai, na rua do Rangel, no domingo de carnaval de 1899 e, coincidência ou não, foi um carnavalesco de mão cheia até o fim de sua não muito longa vida. Na infância, foi coroinha na vizinha Igreja do Livramento e era o encanto dos padres quando subia para o coro e os deleitava com a maravilhosa voz de querubim.

Foi a duras penas que o casal Berior educou as quatro filhas e o único filho varão, mas, graças à loja do patriarca e à doçaria da esposa, os pais conseguiram dar uma educação razoável aos cinco rebentos. As quatro filhas concluíram a Escola Normal e Raoval chegou ao segundo ano de Belas Artes, mas teve de desistir dos estudos depois da morte do pai.

Raoval, as irmãs ainda solteiras, a mãe, dona Floraval (que adorava o filho), mudaram para uma casa bem menor na rua de São João, no bairro de São José e o nosso futuro cronista teve de abandonar as Belas Artes para ajudar no sustento da mãe e das irmãs. Filho e irmão exemplar, recifense da gema e um apaixonado pela sociedade de então, foi o que a pesquisa constatou dos pouquíssimos relatos sobre Raoval Berior.

Entre 1920 e 1930 nada se registra sobre as suas atividades, existindo as mais diversas versões, que, por não serem de fontes fidedignas, prefiro omitir.


De repente, em dezembro de 1930, aparece a primeira crônica social, assinada com o seu nome verdadeiro, o que era uma temeridade, não só no Recife, mas também no Rio de Janeiro e em São Paulo daquela época. Raoval, porém, era destemido e, em menos de um ano, ele sim era temido pela sociedade, pois com as suas alfinetadas, perspicácia na crítica e uma constante observação da sociedade, era capaz de destruir quem ele quisesse e de quem não gostasse. Poder demais para aquele filho de imigrantes libaneses e que, mais tarde, lhe deve ter custado a vida.

A sociedade do Recife na década de 1930 foi reproduzida com minúcias por vezes picantes nos escritos do cronista. O estilo é simplório, com alguns erros gramaticais, às vezes piegas e repetitivo, mas reflete, sem dúvida, a sofrida, ambiciosa, sonhadora e mística personalidade do autor e era a maneira como ele via a sociedade do Recife do entre guerras.
Pelo que eu pude notar das crônicas a que tive acesso, Raoval – fiel aos amigos - tinha os seus ídolos e esses eram sempre poupados e objeto de palavras elogiosas, cheias de exageros, nos textos publicados todos os domingos.

Raoval Berior foi encontrado morto em uma esquina da rua Direita, na Quarta-Feira-de-Cinzas de 1939.


Com o relato acima, espero ter satisfeito a quem me perguntou. Assumo o compromisso de que várias crônicas de Raoval, com fatos marcantes na sociedade da capital pernambucana, na década de 1930, serão publicadas no Lugar do Souto.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

BRUXELLES REVISITÉE


Em 2008, esta é a segunda vez que eu venho a Bruxelas e não esperava fazer muita coisa, além de comparecer às reuniões de trabalho rotineiras. A curta permanência de cinco dias não iria dar para muito mais do que isso – pelo menos era assim que eu pensava. Enganei-me, porém.
A folga do trabalho, nesta quarta-feira, permitiu que fosse ao Palais des Beaux-Arts - que de uns tempos para cá passou a ser denominado simplesmente “Bozar” (sem o “Palais” e grafado desse modo). Já é praxe que sempre que vou ao Beaux-Arts encontro alguma exposição, um bom concerto vespertino, um recital - ou os três - que me agradarão e me farão passar deliciosas horas de entretenimento.
Hoje, não foi exceção.

O atual prédio do Bozar de Bruxelles data de finais da década de 1920 e foi concebido pelo arquiteto Victor Horta, um dos gênios da Art Déco, constituindo um dos muitos monumentos do arquiteto espalhados por Bruxelas.
Quando eu passei por lá esta tarde já tinha conhecimento de uma exposição sobre a Valônia (Wallonie) - a região francófona da Bélgica – com o título "Trésors anciens & nouveaux de WallonieCe curieux pays curieux", e decidi que a tarde seria toda para apreciar o que a Valônia tem de bom para nos mostrar. Entretanto, ao chegar ao Bozar, constatei que a exposição sobre a Wallonie estava associada a outra, essa sim, excelente, do pintor suíço Paul Klee.

O curador da exposição de Klee esmerou-se o máximo possível para apresentar as obras que estão sendo exibidas, entre outras razões porque a última individual do pintor aqui na Bélgica aconteceu em 1948, com os admiradores de Klee há muito reclamando dessa ausência.
A última exposição de Paul Klee em que eu havia estado foi, se não me engano, em Viena, em 2002 ou em 2003, mas a cada contato que tenho com a obra do genial pintor, suíço de nascimento, com forte influência dos mestres da Alemanha (país que o acolheu), mais me apaixono por ela. A arte de Klee é enigmática, colorida, moderna, filosofal mesmo.

Como podem ver, Bruxelas é uma constante surpresa e eu não me canso de descobrir as surpresas que ela tem para oferecer.



Para terminar, deixo estas curtas imagens tomadas hoje, à hora do almoço, na Grand-Place de Bruxelas. Apreciem o som da gente que passa e as maravilhosas obras arquitetônicas:


domingo, 23 de março de 2008

ILHÉU BOMBOM - S. TOMÉ E PRÍNCIPE




Passar uma semana em um país que tem como idioma oficial o português poderia não ter nada de especial, porque, afinal de contas, além de Portugal - que “inventou” a nossa língua - e do Brasil, mais seis países tropicais têm aquele que foi chamado de “Última flor de Lácio” como idioma de união nacional. Entretanto, na semana passada, tive o privilégio de estar em um país insular, constituído por duas ilhas - que lhe dão o nome - e por uns poucos ilhéus de rara beleza ainda não destruída. Refiro-me a São Tomé e Príncipe. A visita a esse país, do qual pouco se conhece no Brasil, fez a diferença nos meus conceitos sobre os países irmãos de origens lusófonas.
Por razões profissionais, desloquei-me à Ilha do Príncipe, que é a menor, a menos densamente povoada e a mais pobre das duas que compõem São Tomé e Príncipe. A ilha merece uma visita, seja para aproveitar as praias, conhecer o que resta das antigas roças de cacau,, visitar a cidade de Santo Antônio ou, ainda, para refletir no que poderá ser feito, em termos de cooperação, para com o povo daquele país, em especial o principiano, mais carente de capacitação e apoio em todos os níveis. A Unesco estuda um projeto para transformar Santo Antônio do Príncipe em patrimônio da humanidade e esse seria um primeiro passo, não só na revitalização do patrimônio arquitetônico mas, principalmente, na melhoria da qualidade de vida dos seus habitantes.
Além de trabalhar, conheci praias selvagens que não devem ser diferentes de como eram as do Brasil há quinhentos anos, quando os europeus começaram chegando por aqui. Entre muitas, destaco a praia do Ilhéu BomBom, a norte da Ilha do Príncipe, com excelentes condições de hospedagem em um resort bem preparado para receber os turistas que apreciam aventura (pesca submarina, montanhismo e muito mais).

Ir ao BomBom não é fácil. Primeiro, tem de se chegar a S. Tomé, via Lisboa, Luanda, Libreville ou Cabo Verde (a maneira mais prática, para quem sai do Brasil, é por Lisboa). A viagem de S. Tomé até à Ilha do Príncipe (40 minutos) é feita em um bimotor de segurança aparentemente suspeita e, do aeródromo local, é preciso enfrentar um caminho, que está mais para trilha do que para estrada, para, só então, chegar ao resort do Bom Bom ("Ufa").
Praias paradisíacas, frutas que pendem das árvores, ambas em profusão, papagaios que sobrevoam nossas cabeças em voo rasante, sol, chuva, tempestades, rios de águas límpidas. Todo esse primitivismo, junto com o barulho constante das ondas do mar, fazem com que o estresse ac
umulado desapareça no segundo dia de permanência no BomBom. A cidade de Santo Antônio, além da beleza natural que a circunda, tem um casario típico da colonização portuguesa que precisa urgentemente de restauração, para que se preservem as origens (que também são as nossas) e a identidade de uma cultura que marcou a história ocidental dos séculos XVI ao XIX. Lindo, muito lindo.


sábado, 8 de março de 2008

CARMEN MIRANDA NO RECIFE

CRÔNICA DE UM RECIFE DE OUTROS TEMPOS

"Se há uma noite que vai ficar marcada para sempre na história do Theatro Santa Isabel - um dos orgulhos de nossa capital -, vai ser, sem dúvida, a noite de hontem, sábado, 29 de outubro de 1932. O mesmo palco em que Castro Alves cantou em versos o seu amor por Eugênia Câmara, rendeu-se à exuberância e às marchinhas da pequena que o Rio de Janeiro nos honrou enviar, Carmen Miranda. Com tanto it e com tanto rebolado, quem não se renderia aos encantos daquela bonequinha carioca de apenas um metro e meio de altura ?

A platéia era constituída pelas melhores famílias de nossa sociedade, com as senhoras exibindo e pavoneando os seus chapéus e as senhorinhas, os solidéus, ambos dignos de fazer sucesso em Paris ou em qualquer outra capital da Europa. Entre as pequenas, destaco, pela elegância e candura, a senhorinha Alaíde de Castro Mello, que em breve será nora dos barões da Várzea. As torrinhas estavam repletas de moços, em sua maioria, estudantes, que entoaram gritos de “Morena do Céu”, tão logo Carmen adentrou o palco.

A minha Olivetti precisaria ter emoções em lugar de teclas para transcrever o delírio do nosso atheneu no momento de apresentação da cantora, que foi feita por ninguém menos do que o poeta pernambucano de Palmares, Ascenso Ferreira. A muito custo, consegui copiar no meu caderninho algumas passagens do verbo ilustre do autor de “Catimbó”. Ascenso subiu ao palco e introduziu Camen Miranda ao público do Santa Isabel, em inesperado momento de silêncio: “Com ela, a tragédia foi morta pelo bom humor e a tristeza nativa mudou-se em festa de batuque e bombos”. Ainda me emociono quando transcrevo o final da apresentação que o poeta "recitou" com aquele vozeirão característico: “Deus permita que tu botes diamantes pela boca”. E botou mesmo, diamantes em forma de canções!

Morena do Céu, Morena do Céu” aclamavam os recifenses, enquanto jogavam serpentinas no palco, embevecidos com a beleza da cançonetista (refiro-me, em particular, aos cavalheiros) e cheios de orgulho quando ela "rasgou" a canção "Eu gosto da minha terra". A noite memorável terminou com um buquê de lindas flores entregue a Carmen Miranda pelo Interventor Carlos Lima Cavalcanti, que nem parecia a alta autoridade que ele é, tão grande era a alegria e tão visível o orgulho que demonstrava, sem dúvida por estar ao lado da cantora.

Esta manhã, fui informado de que Carmen também recebeu um ramalhete sem cartão identificador, provavelmente do mesmo admirador oculto que tem passado os dias de “tocaia” nos arredores do Hotel Central, onde ela está hospedada. Será que tem algum mistério na vida de Carmen Miranda?

A ilustre cantora carioca (que há alguns anos declarou ter nascido em Portugal) chegou ao Recife, vinda de Salvador, no vapor Ruy Barbosa e só voltará à Cidade Maravilhosa depois do dia 5 de novembro, desta feita no luxuoso Zelândia. Quem ainda não viu o espetáculo, vá ver e não se arrependerá.

Senhoras e senhorinhas, minhas fiéis leitoras destas mal traçadas linhas de todos os domingos, concluo esta crônica com a ousada afirmação de que - com a presença de Carmen Miranda na terceira maior metrópole do Brasil - até o astro Will Rogers, que também está entre nós, ficou em segundo plano. Perdoem-me as admiradoras de Will...

Recife, 30 de outubro de 1932 -
Raoval Berior"

sábado, 1 de março de 2008

DOM JOÃO I, REI DO BRASIL - 1ª parte


Não, eu não esqueci de colocar o cinco (V) antes do número um (I) romano, a seguir ao nome de Dom João de Bragança. Foi assim mesmo que eu quis e é assim mesmo que eu pretendo escrever, nesta série de postagens, o nome daquele que foi Chefe de Estado em Portugal (VI) e também no Brasil (I), no início do século XIX.

O Príncipe Regente, Dom João de Bragança, chegou ao Brasil há 200 anos e o “Lugar do Souto” não poderia calar sobre o fato que marcou a nossa identidade, nem esquecer do homem que tomou a decisão de mudar a capital de uma Corte europeia para uma cidade na América do Sul.

A informação mais conhecida é a de que o embarque de milhares de pessoas, no final do ano de 1807, fora algo decidido de última hora, uma atitude irresponsável e inconsequente, motivada pelo pânico de um Príncipe fraco que reinava em nome de sua mãe, doente mental e que a mudança às pressas da capital fora por medo do exército de Napoleão Bonaparte, que já havia ocupado a Espanha, destronado o seu rei e que estava em Portugal com o mesmo objetivo. Por motivos os mais variados, é assim que muitos historiadores descrevem a partida da Corte para o Brasil, sem salientar o fato de que a decisão de partir fora meticulosamente pensada, analisada, discutida, adiada.


Muito já se escreveu sobre os dois ou três dias anteriores ao embarque e sobre o próprio dia em que as naus deixaram o porto de Belém, em Lisboa. Pouco, porém, foi escrito sobre as razões, os planos e a estratégia da partida, uma decisão difícil e única na história de Portugal, na da Europa e na de toda a Cristandade. Transferir para o Novo Mundo uma corte com sete séculos de existência, levando junto a cultura, a arte, os tesouros, a religião, a máquina administrativa e os sonhos de um povo não era uma tarefa fácil e, depois de tomada a decisão, a azáfama do embarque é mais do que justificada pela presença das tropas do General Junot às portas de Lisboa. Não tivesse sido tão rápido o embarque, as tropas francesas teriam interceptado os navios, que apenas ficaram a ver quando chegaram à capital lusitana.



A viagem transatlântica sob guarda britânica, os problemas com os ventos contrários logo à saída - com a subsequente separação das naus -, as tempestades, os piolhos, a passagem pela costa de Pernambuco, a escala para descanso em Salvador da Bahia e a chegada ao Rio de Janeiro a 7 de março de 1808, têm sido objeto, nos últimos duzentos anos, de um sem número de livros e de crônicas específicas, em especial em datas comemorativas como a que agora ocorre. Alguns setores da nossa mídia sempre tiveram uma certa atração em "caricaturar" o momento histórico da chegada da corte e, principalmente, a figura do Príncipe Regente. Nada de mais injusto, pois é a ele que se deve a unidade nacional, a identidade que nos distingue dos países vizinhos e o “salto” cultural e econômico dado entre 1808 e 1821, único na história do Brasil.

Em 2008 e nos próximos anos, o Brasil celebrará os seguintes eventos:

duzentos anos de criação da Imprensa Nacional,

duzentos anos da abertura do nosso comércio internacional (ainda tão incipiente no contexto global),

duzentos anos das Alfândegas do Brasil (hoje, inserida na Secretaria da Receita Federal do Brasil),

duzentos anos da primeira fábrica de pólvora (comentários à parte),

duzentos anos da Biblioteca Nacional,

duzentos anos do Banco do Brasil,

duzentos anos do Museu Histórico Nacional,

duzentos anos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Será preciso enumerar mais?

Quem foi o Chefe de Estado que incentivou e autorizou a criação de todas essas instituições? Dom João de Bragança, Príncipe Regente e, depois da morte da mãe, Rei Dom João do Brasil e de Portugal. O Brasil monárquico teve, além dos Imperadores Dom Pedro I e Dom Pedro II, filho e neto, respectivamente, de Dom João, dois Chefes de Estado com o título de Rei (ou Rainha): Dona Maria I e Dom João I.




Por razões que se justificavam nos anos seguintes à independência, mas que não se justificam quase dois séculos mais tarde, procurou-se apagar da memória coletiva qualquer elo histórico com Portugal. O período do Reino Unido é um desses elos, daí as referências serem sempre a Dom João VI, Rei de Portugal e não a ele como Rei do Brasil. Não se deve, entretanto, esquecer que esse homem que nascera em Portugal tinha o Brasil como sua pátria de coração e o governava sob o título de Rei. O distanciamento atual nos permitie perceber que mais do que um bom Rei para Portugal, ele foi um excelente Rei para o Brasil. Amou tanto o seu reino que não o queria deixar, mas Reis não são (ou não eram) pessoas com vontade própria e o dever de Estado o chamava de volta a Portugal. Dom João I deixava o Brasil e Dom João VI chegava a Portugal.


No decorrer deste ano de 2008 darei uma visão pessoal sobre o personagem histórico e sobre o homem João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís Antônio Domingos Rafael de Bragança e tentarei discernir as razões pelas quais alguns críticos históricos transmitiram às gerações futuras uma imagem tão grotesca do homem, esquecendo os seu feitos como grande Chefe de Estado no Brasil.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

BRAVO MARION COTILLARD

10 février 2008
"Après avoir gagné un Golden Globe, Marion Cotillard a remporté le trophée de la meilleure actrice aux BAFTA (British academy of Film and Television Arts), pour sa prestation dans La Môme. L'actrice française était en compétition avec Julie Christie, Keira Knightley. Cate Blanchett et Ellen Page".

22 février 2008
"Ce soir, à Paris, Marion Cotillard vient
de remporter le César de la meilleure actrice dans le grand spectacle du cinéma français (La nuit des Césars)".

24 février 2008
"Marion Cotillard a remporté l’Oscar de la meilleure actrice à Hollywood pour son rôle d’Edith Piaf dans «La Môme»".

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Il y a quelques mois (le 23 septembre 2007), le «Lugar do Souto» a posté un commentaire à propos de la prestation de Marion Cotillard dans «La Môme» et de la possibilité qu’elle aurait d’être récompensée à l’avenir. L'avenir est arrivé...

J’insiste sur le fait que je ne suis ni spécialiste en cinéma ni doté du don de la prévision, mais voici les résultats qui confirment le texte que j’ai écrit en septembre de l’année passée :

Le GOLDEN GLOBE (voir commentaire du 14 janvier),
Le
BAFTA
Le
CÉSAR
L’OSCAR

L’interprétation de Marion Cotillard dans le rôle d’Edith Piaf est tellement superbe que le monde du 7ème Ars a succombé à ses pieds.
Félicitation à la grande star !


sábado, 23 de fevereiro de 2008

MAIS MISTÉRIO NO PARQUE HOTEL*

(continuação)



O ascensorista parecia embevecido com o ponteiro (se é que assim podemos chamar) que, ao alto da porta, indicava o andar em que o elevador estava, pois em nenhum momento baixou o olhar daquele indicador. Alexandra, depois de ter tirado o chapéu, arrumava os negros cabelos, deixando mais à mostra toda a beleza do seu rosto. O chanel inebriante, a que me referi há pouco, inundava o ambiente a cada um dos seus delicados gestos e eu, pobre de mim, estava petrificado, hipnotizado, embriagado com a beleza e com o perfume.

Segundo piso!”, anunciou o ascensorista. A Condessa de Leicester saiu do elevador sem nem ao menos olhar para trás. Ingrata! Antes mesmo que eu chegasse ao meu quarto, ela já abria a porta do vinte e cinco e chamava pelo filho, "Timothy, Timothy!" Quando me aproximei da porta daquele que agora era o meu refúgio, pude notar que ambos conversavam e riam divertidamente. Foi a muito custo que não fiquei parado, para tentar ouvir o que mãe e filho falavam. Noblesse oblige. Fechei a porta.

Mal eu havia começado uma desesperadora busca para encontrar a máscara trazida de Veneza há mais de dois anos, a campainha do quarto tocou. Passado o susto provocado pela estridente campainha (nunca antes havia me assustado), abri a porta e deparei com a camareira que trazia nos braços - como se um tesouro fosse - a Tenue de Gala, de uso obrigatório na soirée da noite. Com uma voz quase inaudível, a funcionária do Parque Hotel que, pelo uniforme diferenciado, deveria ser a chefe das camareiras, pediu autorização para colocar a vestimenta sobre a cama. Com um gesto indiquei que sim e continuei a procurar a máscara.

Depois de alguns instantes notei que a camareira ainda não havia saído e, quando me voltei, deparei com ela parada, com o olhar fixo em mim, como se estivesse diante de um fantasma. Ao virar-me para ela, imediatamente baixou a vista. O tom de sua pele era de um moreno muito claro e deveria ter cerca de sessenta anos, pouco mais ou menos. Não era alta nem baixa e os cabelos brancos faziam com que a touca que usava passasse despercebida em meio a tanta alvura. Imaginei que a razão da espera seria para receber algumas moedas, comecei a procurá-las na algibeira e ela, sem levantar os olhos do chão, perguntou em um português com forte acento castelhano ─ “Vossa Excelência é do Brasil, não é?”

Fiquei tão surpreso com o fato de uma simples camareira dirigir-se a um hóspede, que não respondi de imediato, Ao se dar conta do descumprimento de uma das regras básicas da hotelaria, ela quase que foi ao chão, em uma vênia reverencial, para pedir desculpas pelo atrevimento da pergunta. ─ “Ora essa, afinal não foi tanto atrevimento assim. Sim, sou brasileiro, como já o deveria saber. E, pelo que ouvi, você também é”, concluí. Em lugar de resposta à pergunta que eu fizera, fui surpreendido (e como!) com outra pergunta. ─ “Vossa Excelência é da Província de Pernambuco?”
Embora, eu começasse a ficar irritado com o interrogatório, acenei afirmativamente. Não sei se deveria ter respondido ou não, já que depois daquela resposta ela levantou o olhar e fixou nos meus olhos, o que muito me perturbou pela insolência e por algum outro motivo que ainda não sei qual. ─ “Desculpe, mas preciso começar a aprontar-me para o baile de logo mais e não posso ficar aqui com conversas sobre as minhas origens”, disse-lhe eu, já em tom bastante ríspido. De nada adiantou, pois ela continuou, para minha estupefação, ─ “Sem dúvida que é o filho mais velho do Barão da Várzea, ou estarei errada?” Sentei no pufe que estava ao meu lado, para não demonstrar surpresa, e disse ─ “Como sabe?” ─ “Impossível não ser, Vossa Excelência é a cópia fiel do que era o senhor Barão há quatro décadas atrás,” afirmou a camareira.

Tanta coincidência, somando-se a tudo o que eu já havia vivido naquele sábado, fez com que eu ficasse sem reação. Ela aproveitou e continuou, ─ “Meu pai era o feitor do do senhor seu avô e minha mãe, a dama de quarto da Baronesa, avó de Vossa Excelência. Nasci perto do engenho e passei lá a infância e parte da juventude. Até hoje lembro do cheiro da terra e ainda sonho com o fruta-pão quentinho que a minha mãe fazia para o nosso desjejum. Os meus pais desapareceram em uma queimada do canavial, nunca encontraram os corpos e eu, sem mais ninguém, vim para estas terras, em um vapor de que já esqueci o nome.”

Era informação demais para o meu cérebro assimilar em tão pouco tempo. Olhei mais uma vez aquela mulher de expressão facial tão sofrida, mas que conservava ainda traços que indicavam o quanto deveria ter sido bela, e disse-lhe ─ “Conversaremos em outra ocasião”. Ela já se retirava, quando eu resolvi perguntar: “Qual é o seu nome e em que ano você veio para o Uruguai?” ─ “Isabel, senhor e saí de casa no dia em que alguns comemoravam os três anos do golpe republicano que expulsou os nossos Augustos Imperadores, 15 de novembro de 1892. Em breve, completarei quarenta anos de nova pátria. Com licença”. Dito isso, ela desapareceu no hall de mosaicos azuis acinzentados.


Recomecei a busca da máscara veneziana, voltei a pensar em Alexandra e decidi que iria investigar a história daquela mulher quando voltasse para Pernambuco. Meu pai deveria lembrar de alguma coisa. Pensei melhor e resolvi que iria perguntar à mamãe, pois o velho Barão da Várzea - meu pai -, nos seus setenta e oito anos, já não lembrava de muita coisa do passado (ou não queria lembrar).

Decidi então que, a partir daquele momento, eu me concentraria apenas no baile e em divertir-me, pois no dia seguinte, 10 de julho, seria o meu aniversário de quarenta anos (pena que ninguém no hotel soubesse!).

Camareira? Brasileira? Monárquica? Eu não tinha mais dúvidas. Fora ela a pessoa que conseguira os nomes dos moradores do quarto vinte e cinco do Parque Hotel.


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*Os mistérios no Parque Hotel já foram contados em três postagens anteriores: 27 de outubro, 3 e 11 de novembro de 2007.
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