domingo, 24 de maio de 2009

A VIRADA RUSSA - H. MALIÉVITCH E MUITO MAIS


SUPREMATISMO. A arte a partir do nada.
Cruz Negra, Quadrado Negro e Círculo Negro.

Imperdível a exposição em cartaz na cidade de Brasília, "A Virada Russa". Como é vastamente sabido, o início do século XX foi um momento fértil e turbulento para a história da arte. As artes plásticas, a poesia, a música, a dança, o teatro e, até mesmo, o cinema, repudiavam a tradição e buscavam instituir uma nova norma. A Rússia não fugiu à regra.Adicionar imagem
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Toda a exposição é dedicada a esse contexto de transgressões, quando os artistas russos buscavam conformar (e confirmar) a virada que se instalou na arte do país nos primórdios do século XX. A coleção trazida ao Brasil pertence ao Museu Estatal Russo de São Petersburgo e totaliza 123 obras, entre telas, cartazes, esculturas, figurinos e alguns objetos do quotidiano de então.

Ontem, passei boa parte da tarde e do início da noite embevecido com as telas de Kandínski, Ródtchenko, Lariónov, Tátlin, Natalia Gontcharova e por aí vai. Algumas obras, eu já conhecia, outras, não, assim como me eram também desconhecidos alguns artistas. Pior para mim, que levei tanto tempo para os conhecer.


Impossível não ficar emocionado ao estar frente a frente com a Promenade de Marc Chagall e não sentir um arrepio com a trilogia de Maliévitch (também grafado "Malevich"), que inicia o presente texto. E o que dizer da "Cabeça de Camponês", retratando o povo russo pelas leis estéticas do superativismo? Genial.

À genialidade deste último, concedo o título da postagem, e ele passa
, assim, a representar cada um dos artistas que constituem a exposição. Todos, entretanto, são merecedores de servir de título a qualquer crônica sobre exposições e sobre a pintura russa daquela época.

Cheguei a pensar em descrever o que foi a deno
minada "virada russa" nas artes, mas, por ser um leigo, prefiro inserir algumas obras do meu favorito, Maliévitch. Peço que apreciem o traço inovador e a força de cada tela, sem esquecer que são todas das primeiras décadas do século passado. Solicito, também, uma atenção especial para o auto-retrato feito em 1933, símbolo da ironia do artista contra os valores estalinistas e inserido no início desta postagem, em miniatura, para aguçar a curiosidade. Maliévitch? Malevich? O que importa é o gênio do artista, não a grafia do nome em nosso alfabeto.



Aos que puderem, aconselho saírem de casa e irem correndo à exposição "A Virada Russa" (em Brasília até o dia 7 de junho e, em seguida, no Rio de Janeiro e São Paulo). Claro, que quem quiser e ainda não tiver ido, poderá visitar São Petersburgo, em 2010, porque todas as obras voltarão para lá. Pessoalmente, ainda não fui à maravilhosa cidade museu da Rússia. Quem sabe, um dia, não irei rever essas obras no Museu Estatal Russo de São Petersburgo? (Sonhar não custa...).

quarta-feira, 20 de maio de 2009

DARWINIUS MASILLAE - IDA, MARAVILHA DA CRIAÇÃO/EVOLUÇÃO

IDA
Et Fiat Lux


Nós, humanos, somos especialistas em muitas coisas, inclusive em dar nomes a pessoas, animais, objetos e fósseis.







Há poucos dias, um grupo de cientistas apresentou
à comunidade internacional um fóssil, ao qual apelidaram de "Ida", que foi identificado como ancestral dos primatas. Os cientistas afirmam que o fóssil é o elo perdido entre os prossímios e os símios, categoria onde, no topo evolutivo, inclui-se o Homo Sapiens Sapiens, isto é, nos incluímos todos. Embora descoberta há mais de vinte anos, só agora Ida foi revelada.

Maravilha da ciência, maravilha ainda maior da Criação.

As descobertas científicas sempre me fascinaram e a cada nova revelação aumenta a convicção que tenho de que tudo o que vivemos é o evoluir constante do "Momento Primeiro". Após o "Comando Criador", a Luz foi feita e, a partir daí, o livre arbítrio foi deixado à criação para evoluir e percorrer a longa caminhada até à "Força Inominada", que foi o princípio e que será o fim do inexplicável percurso.


Estimou-se a idade de 47 milhões de anos para o fóssil da pequena Ida. Tão pouco tempo na girândola do Universo!


A enorme revelação dos cientistas, que a todos surpreende e maravilha, comprova a nossa finitude e pequenez diante da Magnitude Daquele que a tudo criou.

sábado, 9 de maio de 2009

CORDEL DO MAQUILADOR MILAGREIRO

Neste sábado, véspera de um domingo comemorativo, ninguém consegue andar nos centros comerciais de Brasília e, por esse motivo e por preguiça, resolvi ficar todo o dia em casa, meio sem graça e sem disposição para fazer nada, além de dormir, acordar e dormir de novo. No meio da tarde, porém, recebi um telefonema de duas amigas do Recife que iria pôr fim à monotonia do sábado. Durante a alegre (e cheia de vírus gripais) conversa telefônica, uma das minhas amigas, cordelista e pasquinista de carteirinha assinada e com glorioso passado militante, perguntou se eu já havia lido o emblemático folheto, símbolo do cordel pernambucano "O Maquilador Milagreiro".

Naquele momento eu não lembrei de já ter lido o folheto e também não sabia da fama de santo, com direito a operar milagres e tudo, de nenhum maquiador. Prometi às amigas que iria pesquisar sobre o cordel nos meus alfarrábios e, logo que descobrisse alguma referência, daria uma resposta.
Em seguida, mexi e remexi nas minhas caixas, procurei na montanha de folhetos que tenho na biblioteca e, de repente, deparei com o citado folheto que, por estar novinho com as folhas ainda fechadas, deve ter sido colocado na estante muito recentemente. O título é esse mesmo, "Maquilador" (grafado "Maquiladô) e não "Maquiador", como manda o Aurélio. Por outro lado, o adjetivo "milagreiro" indica não aquele que acredita facilmente em milagres, mas sim a pessoa que opera o feito. Escolhi, então, a melhor poltrona, soltei as folhas presas e me entreguei ao folheto, escrito em um português nada conforme com as regras clássicas, que narra o conto cheio de milagres e mistérios de um milagreiro sertanejo que vem operando feitos extraordinários na região. A seguir, reproduzo os primeiros versos, exatamente com a mesma grafia simplória e incorreta do folheto, de autor desconhecido:


"Acreditem, ilustres senhores, que esse fato é verdadeiro

Moça véia vira nova, homem gordo vira magro e osso vira gordura,

Tudo isso acontecendo, sem que ninguém saiba porquê,

Em terras do nosso sertão, lá pr'os lados de Umbuzeiro.

A fila é de se perdê de vista

Com gente rezando e chorando pr'o novo milagreiro,

Pedindo só pr'á sentá na cadeira de doutô,


Oiá aquela máquina que ocês chamam de câmera

E por graça de sei lá quem,


magreza vai virá beleza e veíce será juventude.


Pr'ó povo de Umbuzeiro o milagre é obra séria, fruto de fé e amô,


De um desencarnado bondoso que já foi maquiladô,


Que mijo transforma em água, que depois é congelada sem usá congeladô.


Seja lá o que fô, só sei que é coisa boa, pois tem padre, home e muié


Querendo moiá a cara com água que já foi mijo e que era quente e gelô.

O milagre da juventude tá na água gelada pelo santo maquiladô.

Ao povo do meu sertão, eu que sou cantadô,
só tenho pr'á dizê a todos


Que mais d
o que dom beleza é hábito e obra do milagreiro,

Que já foi maquiladô e
teve fé no Sinhô"
.



domingo, 5 de abril de 2009

CORRESPONDÊNCIA EM TEMPOS PASSADOS


Como eu gostava do tempo em que as pessoas se comunicavam por carta! Sim, carta mesmo, escrita em papel pautado (próprio para correspondência) que, antes de ser enviada, era "bem fechadinha" dentro de um envelope, normalmente com as cores do país de procedência. Durante toda a minha infância, adolescência e parte da juventude a pessoa mais ansiosamente esperada em nossa casa era o carteiro, aquele homem uniformizado (no Recife se diz "fardado") que trazia notícias de pessoas distantes (nem sempre tão distantes assim).




Sou filho de portugueses e receber cartas era uma rotina para a nossa família, sendo que as da vovó para mamãe eram as mais importantes, já que as cartas da família de meu pai iam para a loja e não para a nossa residência, na Rua do Cupim. Não recordo se eram duas por mês ou uma a cada vinte dias, mas sei que a troca de correspondência entre mãe e filha era muito frequente. Quando chegava a altura de minha avó escrever e o carteiro não aparecia com a carta, mamãe começava ficando impaciente e, principalmente, preocupada. A preocupação dela terminava passando para todos nós e eu, em criança, sempre achava que, um dia ou outro, notícias ruins viriam. Ainda bem que elas nunca vieram, pois a saudosa vovó só nos deixou quando eu já tinha mais de quarenta anos (e ela, quase 102) e as "titis" portuguesas faleceram todas depois dela, quando as notícias más já não eram enviadas por telegrama e, muito menos, por carta.
Um dia, no Colégio São Luís, onde eu estudava, apareceu um quadro com endereços de "brotos" de quase todo o mundo que pretendiam trocar correspondência com garotos brasileiros da mesma faixa etária delas (14, 15 anos) e eu escolhi, ao acaso, quatro nomes que estavam no quadro, duas garotas dos Estados-Unidos, uma da França e outra da Polônia, país, à época, na misteriosa "Cortina de Ferro".

Feita a escolha, trouxe os endereços para casa. Na aula particular de inglês, aos sábados de manhã com Mrs. Sterling, britânica típica e maravilhosa, que ensinava a língua materna a toda a Rua do Cupim e arredores, redigimos a carta de apresentação, decidindo que a primeira seria para Rosemary Hinebrook, americana de Highland Park, Michigan. Guardei uma cópia da carta, para não ser repetitivo (nem me contradizer...) e, no dia seguinte, às 15:05h, fui pessoalmente aos Correios e Telégrafos da avenida Guararapes postar aquela que era a primeira carta só minha e não da família. Jamais um ato tão importante seria confiado a outra pessoa, que não a mim próprio.
A partir daquele dia, esperar pelo carteiro deixou de ser apenas um hábito e passou a ser quase uma obsessão.
A carta para o idílico Estados-Unidos foi a primeira de uma longa amizade, graças ao carteiro que me trouxe muitas outras, algumas perfumadas e com fotos coloridas. Rosemary e eu fomos pen friends por quase 10 anos, mas depois a correspondência foi escasseando até parar e nunca mais eu soube dela, nem com a ajuda da moderna Internet.
A seguir àquela primeira carta, enviada em 1961 ou 1962, muitas e muitas outras foram escritas e recebidas. Cartas de amor, cartas de amigo, cartas de nem um nem outro, mas sempre ansiosamente esperadas. Quando a correspondência não chegava, eu reclamava dos correios ou do carteiro, mas no dia em que, lá dentro de nossa casa, alguém ouvia o grito, misto de voz de tenor com barítono, "Correiôôôô", os corações batiam mais forte e toda a raiva sentida pelo simpático carteiro era esquecida e ele, o herói do dia.

Claro que hoje ainda há cartas, carteiros e correspondência, mas que tudo mudou, lá isso
mudou! A ansiedade deixou de existir, não há mais tempo para esperar nada nem ninguém. Os carteiros, agora também com mulheres exercendo a profissão, só trazem contas a pagar e publicidade não pedida, nem desejada. O correio tradicional está sendo substituído pelo correio eletrônico, insípido, que não provoca ansiedade e, o que é pior, faz mal à vista.

Não me emociono mais ao receber e-mail e até os de amor, que são raros, perderam o romantismo. O que eu queria mesmo era continuar esperando o carteiro e ouvindo o seu pregão apregoado com tanta galardia: "Correiôôôô".

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

YES YOU DID, PRESIDENT OBAMA


BARACK HUSSEIM OBAMA.


Produto da mídia (ou dos média, como se diz em Portugal)?
Oportunismo do capitalismo norte-americano?
Última esperança para um povo desiludido dele próprio?




Todas as perguntas acima podem ser respostas para quem não acredita que o mundo possa mudar. Entretanto, e como o próprio Presidente Obama disse, "Yes it can". Sim, o mundo pode mudar, porque todos nós podemos sempre mudar.


Sou brasileiro, mas também sou cidadão de um mundo globalizado, no qual nenhum país está só. Por esse motivo, a eleição de um político para o mais alto cargo de uma nação, que não é a nossa, está sendo objeto de uma segunda postagem no "Lugar do Souto".


Estou consciente (estamos todos) de que é aos Estados-Unidos que a eleição de Barack Husseim Obama mais importa, mas quem vai negar que ela terá consequências em todo o globo? O simples fato de esse homem ser o novo presidente de um país como o dele, mostra que algo já mudou na mentalidade do povo norte-americano. Confesso que nunca pensei que hoje, 20 de janeiro de 2009, dia em que completo 62 anos, eu presenciasse ao espetáculo que presenciei.


Acredito que esse homem mestiço (negro, no conceito de lá), portanto sensível aos problemas das duas comunidades de que é originário, terá sensibilidade para entender as diferenças internas e, consequentemente, as diferenças externas e, assim, dar um pequeno passo no caminho da PAZ.


Acredito, também, que Barack Obama, com raízes em dois credos distintos, cristão e islâmico, terá conhecimento para entender uma das causas das guerras que hoje colocam os povos uns contra os outros. "Uma causa", eu disse, mas é melhor entender uma, do que não entender nenhuma.


Acredito que o novo presidente irá tentar trazer uma época diferente para o planeta terra. Se irá conseguir, só o tempo nos dirá.


Ressalto, porém, que não é a raça (ou as raças), nem os credos do novo presidente dos Estados-Unidos que devem ser destacados. É a sua competência para lutar contra as adversidades, a tenacidade, o jogo político e as promessas de campanha (que acredito sejam honestas) que conferem a confiabilidade ao grande político que ele é. Barack Husseim Obama conseguiu chegar ao local a que chegou e eu torço para que a esperança de bilhões de pessoas deixe de ser esperança e se concretize.
Boa sorte para ele, para o país dele e para todos nós.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O ECLODIR DAS PAIXÕES NO PARQUE HOTEL DE MONTEVIDÉU

(Continuação)
No início da noite, a orquestra havia aberto o baile com “My sweet” e, no exato momento em que chegavam os meus companheiros de mesa, ela desmanchou os corações carentes com “I can’t believe that you’re in love with me” – “Que noite que terei hoje”, pensei naquele instante! – Ah, se eu pudesse prever as sucessivas desgraças que o primeiro encontro com os Leicester me iria trazer, teria saído correndo do baile do Parque Hotel, do próprio hotel e, até mesmo, de Montevidéu. Os acordes da orquestra e o vozerio que já se fazia ouvir eram como que o coro de uma tragédia grega anunciando o meu triste porvir.

Ao levantar, após os cumprimentos já referidos, afastei as três poltronas ainda livres e esperei que cada um escolhesse a que queria ocupar. Para meu desalento, Sir Charles Northumberland ofereceu a Alexandra a que estava mais longe de mim, tendo ele e Timothy escolhido as que estavam ao meu lado direito e esquerdo, respectivamente. Mais uma ironia do Destino: no primeiro encontro, Timothy ocupou o lado do coração e Alexandra, sentada à nossa frente, vigilante e sedutora, mais parecia Eros com a sua flecha certeira do que a Afrodite na qual, pouco a pouco, iria se tornar.


Por cortesia, ofereci uma taça do Veuve Clicquot Ponsardin que já estava à mesa, em primeiro lugar, para Alexandra e, em seguida, para o cônsul britânico. Quando eu estava prestes a perguntar ao jovem Timothy se gostaria de um ponche de maçã, ele, quase me cegando com o brilho do verde dos seus olhos que cintilavam por detrás da máscara dourada, estendeu a taça que restava e, num inglês vitoriano, nada compatível com o falado em julho de 1932, diz, – “My dear sir, in less than two hours I shall be eighteen years old, and I am quite sure that my mummy alouds me to start drinking wine and spirits at this very moment”. Tendo notado o meu embaraço, Alexandra acenou afirmativamente e desabrochou uma sibilina gargalhada, o que me deixou ainda mais constrangido.

Enchi a taça que permanecia estendida e fiz um brinde antecipado aos 18 anos do Conde de Leicester e aos meus 40, informando aos presentes que o meu aniversário natalício também iria ocorrer no dia 10 de julho, ou seja, dentro de escassas duas horas, a partir daquele momento.

Mais duas garrafas do maravilhoso champagne foram encomendadas pelo cônsul e, antes mesmo que eu sorvesse os últimos goles, Alexandra, descumprindo todas as regras vigentes, estendeu-me os seus sedosos braços de alvura digna de um quadro renascentista e perguntou, no seu também deslumbrante inglês que doravante traduzirei, –“Não me diga que vai permir que a orquestra termine "I can’t believe that you’re in love with me” sem me tirar para dançar? Seria um crime para os demais presentes a este baile, que perderiam a chance de ver o belo par que faremos!”

O salão do Parque Hotel parecia todo ele girar quando enlacei a cintura daquela mulher misteriosamente bela e, mais ainda, quando senti o farfalhar das plumas da sua máscara junto à minha veneziana. E o mundo inteiro girou quando os seus seios levemente desnudos roçaram o meu smoking, tão bem passado por aquela outra misteriosa mulher que o entregara no meu quarto ao cair da noite.
Estava jogado o feitiço.


E não foi uma, mas duas ou três melodias que, em silêncio, dançamos, estando eu entontecido pelo perfume de Alexandra, com a ajuda do champagne bebido. De longe, duas flechas verdes estavam prontas a serem disparadas...

sábado, 15 de novembro de 2008

D. MANUEL II DE PORTUGAL - ANIVERSÁRIO NATALÍCIO

No dia 15 de novembro de 1889, nascia em Lisboa o Infante Dom Manuel, filho d'El-Rei Dom Carlos I e da Rainha Dona Amélia e que, com apenas 18 anos, foi levado pelos percalços do destino, a assumir o trono de Portugal, com o título de Dom Manuel II. A história tem sido, algumas vezes, injusta com este Rei, que foi o último da saga dos quase oito séculos da monarquia lusa, mas alguns historiadores mais recentes têm tentado transmitir a verdade sobre o caráter do jovem monarca.

Se Dom Manuel de Bragança cometeu erros, eles foram causados pela inexperiência dos seus 18 anos e por alguns maus conselheiros, mas em nenhum momento foi fraco como Chefe de Estado ou fútil, como homem. Era um apaixonado pelo seu país e pelo povo português, que tanto o injustiçou.

A seguir, reproduzo um trecho do livro (ainda não concluído, nem, obviamente, publicado), "Dom Manuel II - o voo solitário das saudades de um rei". Em tom autobiográfico e num delírio visionário, o autor percorre a vida do monarca, desde o nascimento, em15 de novembro de 1889, até o dia da morte, em 2 de julho de 1932.




"[Oiço choro de criança, risos e vozes femininas que me são ainda confusas… “É um Infante, é um Infante”…, oiço-as agora com nitidez dizer. São quase seis da manhã, seis horas menos exactos quinze minutos e começo a reconhecer e a identificar cada pessoa, primeiro, pelas vozes, depois, pelo que delas me foi dado ver em antigas fotos da família. Lá está D. Alice Costa, parteira da família real! Destaca-se entre todas pela brancura do avental sobre o vestido negro, a segurar uma criança nos braços e a mostrá-la aos presentes, orgulhosa, tal qual timoneiro que acabara de conduzir o barco a porto seguro. A ajudá-la, vejo uma criada que ainda lembro chamar-se Catherine Ijel e que sei ser luxemburguesa. Ao lado de ambas, a condessa de Sabugosa, aia da rainha. Criadas mais novas a apoiá-las no seu trabalho desdobram-se em cuidados de limpeza, enquanto correm em alvoroço de um lado para o outro. Em meio àquele reboliço, identifico, por fim, a mamã, tão bonita e tão nova, sorridente em sua cama, plácida, ainda que extenuada, como qualquer mãe que dera há pouco à luz um filho, em nada nisso distinguindo-se rainhas ou não-rainhas.

Se pouca dúvida tinha, doravante nenhuma mais tenho: sou eu aquela criança que acabara de nascer. Vejo-me recém-nascido. Abro os olhos pela primeira vez. Mulheres de preto, vestes negras em todo o quarto. Não percebo porque todo este negro. Um bom sucesso é ou não uma ocasião de grande regojizo? Por que ou por quem, então, será o luto? Ah, é claro, já me lembro, a corte cumpre nojo pesado quer pela morte do Infante D. Augusto, falecido a 26 de setembro, quer pela do seu irmão, o Rei D. Luís, meu avô, ocorrida há menos de um mês e, além disso, o preto — luto ou não — foi, é e também no futuro devê-lo-á ser, a cor favorita das mulheres do meu país.]"

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

EROS ET AGAPE


" "Eros" et "agape" – diversitas et unitas Amori inter virum ac mulierem, qui non ex cogitatione nascitur neque ex sola voluntate verum certo quodam modo homini imponitur, Graecia antiqua nomen tribuit eros. Iam in antecessum fatemur Vetus Testamentum Graecum bis tantum, Novum contra Testamentum numquam vocabulum eros adhibere: tribus enim ex vocibus Graecis ad amorem spectantibus — eros, philia (amicitiae amor) et agape — Novi Testamenti scripta concedunt quoddam fere privilegium extremo nomini, quod in Graeca lingua potius ad marginem remittebatur. Quod amicitiae ad amorem (philia) attinet, is repetitur et in Ioannis Evangelio altiorem accipit significationem, quatenus necessitudinem inter Iesum eiusque discipulos declarat. Haec exclusio verbi eros atque simul novus amoris prospectus qui per vocem exprimitur agape eo usque quasi exclusam sine dubitatione in christianae vitae novitate aliquid necessarium omnino ad amorem comprehendendum designat. [...]"



Todos os que me lêem sabem das minhas convicções. Nesta postagem, sem nenhum apelo religioso, nem com a intenção de influenciar a filsosofia humanística ou teológica de quem quer que seja, gostaria de sugerir a leitura da Encíclica "Deus caritas est", publicada no dia de natal de 2005 por Sua Santidade o Papa Bento XVI. Magnífica peça filosófica. A encíclica desse grande e muito sábio teólogo serve de alento a todos os que estiverem passando por um momento de dúvida quanto aos valores da nossa sociedade, aos que estiverem perdidos nos labirintos do ódio, da revolta, da inveja e da incompreensão. Sempre que sinto o inconformismo feroz ou a desilusão descabida quererem aflorar no meu espírito, leio uma ou duas páginas da "Deus caritas est" e durmo em paz. Afinal, como diz Sua Santidade, Deus é amor e Deus está em todos nós, portanto, todos somos eros e agape e devemos viver plenamente essa "unidade dual," esse mistério do Criador, entranhado em nós, suas criaturas.
A encíclica foi redigida em latim, mas é possível encontrá-la em vários idiomas, inclusive, o português

sábado, 8 de novembro de 2008

MÁRIO NUNES - PINTOR DO RECIFE E ARREDORES


Ontem à noite, enquanto folheava um livro, que tenho comigo aqui em Brasília, sobre retrospectivas de pintores famosos organizadas por entidades governamentais, confirmei o que já há muito sabia: as entidades culturais oficiais do Recife são ingratas com os seus artistas e têm memória curta em relação à arte daqueles que fizeram sucesso em um passado não tão distante assim.

Pensei, por exemplo, no pintor Mário Nunes, que talvez alguns dos leitores deste blog não tenham conhecido, mas que foi um dos fundadores da Escola de Belas Artes do Recife, além de excelente cenógrafo dos teatros recifenses e um dos artistas convidado para pintar o Teatro do Parque, quando ele foi inaugurado.

Mário Nunes, que nasceu no Recife em 27 de outubro de 1889 e morreu na mesma cidade em 1982 (se não me falha a memória)(corrigi a data anterior, de 1962 para 1982, conforme comentário abaixo), é considerado um impressionista tardio, tendo a sua obra a marca de retratar as paisagens pernambucanas, os locais e os fatos marcantes do Recife e dos seus arredores. O mestre influenciou a arte de muitos dos seus alunos, hoje pintores de renome da cidade do Recife e foi contemporâneo, entre outros, de Murillo La Greca, mas não obteve a mesma notoriedade deste também excelente pintor.


Algumas galerias ainda tentam divulgar os quadros do mestre Mário Nunes, mas é minha opinião que o Departamento Cultural da Prefeitura do Recife deveria promover uma mostra com as inúmeras telas ainda existentes e que se encontram tanto em galerias de arte, quanto em coleções particulares. A ocasião seria excelente para promover um grande artista pernambucano, contar a sua vida com fotos e textos, além de rever, através das obras, um pouco do passado de um Recife que não existe mais. Só de igrejas pernambucanas, por exemplo, ele pintou mais de 40 telas, sem contar com inúmeras outras que mostram paisagens já alteradas pelo progresso.

Neste ano de 2008, um famoso marchand do Recife lançou um livro com as igrejas pintadas por Mário Nunes, ao mesmo tempo em que exibiu as telas originais. Excelente evento, que merece parabéns, mas é preciso que as entidades oficiais também promovam o que temos de melhor.


Desde muito jovem que me sinto atraído pelas telas de Mário Nunes, pelo seu toque impressionista tropical, pelo amor com que retratou a nossa terra. Acho mesmo que passei toda a vida olhando e me deixando impressionar por uma tela do pintor que emoldurava a sala de jantar da casa dos meus pais e que me acompanha até hoje. Deixo aqui a lembrança, em tom de apelo, às entidades culturais da nossa cidade, para promovem um grande ciclo de mostras de pintores recifenses do passado e do presente, iniciando para o mestre Mário Nunes. Vamos prestigiar o que é nosso, divulgar os artistas que amaram a cidade do Recife e demonstraram o amor através da arte.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

WELCOME MR. PRESIDENT

O Lugar do Souto tem por princípio não publicar postagens de cunho político, não manifestando apoio a qualquer partido ou ideologia, seja no âmbito nacional, seja no internacional.

Toda pessoa que vive em sociedade é uma pessoa política. O resultado de uma eleição em um país como os Estados-Unidos da América que, agradando ou não, exerce o controle econômico do planeta, sempre nos afeta. Foi, portanto, com grande interesse que passei esta madrugada acordado até às 5:30h daqui de Portugal, acompanhando a apuração voto a voto.


Já segui inúmeras eleições nos E.E.U.U., algumas com muita paixão, outras, sem qualquer interesse. A eleição de ontem, porém, ultrapassou a tudo o que já vi na política da potência norte-americana. Tenho a certeza de que todos vivemos um momento único e os dias 4 e 5 de novembro de 2008 irão marcar a história do mundo ocidental. Estou feliz pelo resultado das eleições e por ter tido a chance de presenciar essa mudança que nos afeta a todos, mesmo aos mais esquecidos.


Parabéns ao povo dos E.E.U.U. e parabéns, Presidente Barack Obama. O mundo confia em você. Sorte!

sábado, 25 de outubro de 2008

INFORMAÇÃO BOMBÁSTICA PARA UM HÓSPEDE DO PARQUE HOTEL



"The Times/1930/Obituary/
Earl EDWARDS OF LEICESTER
Earl Edwards of Leicester (1855-1930), son of Late
Earl Charles Timothy of Leicester and Elizabeth of Leicester.
Source:
Obituaries The Times, Monday, Apr 14, 1930.
Obituary

Earl EDWARDS OF LEICESTER
PUBLIC SERVICES TO ENGLAND

Earl Edwards of Leicester, Lord Colonel of Banffshire, suddenly died at his residence, 9, Rothesay-road, London, early yesterday morning. He had been mysteriously confined to his house for the past two months, but until a week ago he had been able to attend to his many important public and business interests. He was in his 75th year. The death of Earl Edwards is under police investigation taking into account the possibility of not normal causes.
Earl Edwards of Leicester was married to Alexandra Mary, Countess of Leicester and the couple has a single son, Timothy Edwards, from now, Earl of Leicester."



Há dois dias recebi a notícia acima, enviada por uma amiga do Recife que, entre muitas atividades, é ainda detetive nas horas vagas. O texto foi retirado do obituário do jornal britânico The Times, de 14 de abril de 1930.

O fato de a Condessa Alexandra ser viúva, todos já sabíamos da leitura* do diário de Anacleto Brito Leão, as duas novidades são 1º) que a morte do velho conde foi colocada sob investigação policial e 2º) a grande diferença de idades entre Alexandra e o seu falecido marido (cerca de quarenta anos). Se aquela amiga detetive conseguiu descobrir esses fatos, sem dúvida que Anacleto Augusto também os devia saber, mas só a retomada da leitura do diário nos permitirá confirmar Infelizmente, amanhã estarei voltando, em serviço, à cidade de Bruxelas e não terei tempo para reiniciar a transcrição neste Lugar do Souto das aventuras ocorridas, em julho de 1932, no Parque Hotel de Montevideu e narradas por Anacleto no seu diário. Como Anacleto Brito Leão terá reagido ao saber do passado de Alexandra?
Questiono, também, se a informação agora conhecida, juntamente com os demais fatos ocorridos com Anacleto Augusto no Parque Hotel, terão sido do conhecimento de Raoval Berior, um cronista de segunda categoria que fazia carreira se intrometendo na vida das pessoas da sociedade do Recife da década de 1930. Será que Raoval Berior soube desses fatos?
Paciência! Um dia, todos iremos saber o que se passou naqueles tempos.
*Os leitores que não tiveram oportunidade de ler as postagens anteriores, é só percorrerem os títulos à esquerda do blogue e irem se inteirando dos fatos e dos personagens.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

BRUEGHEL EM BRUXELAS E IBSEN EM OSLO

O que é que um pintor flamengo do século XVI tem a ver com um teatrólogo norueguês do século XIX? Nada, que eu saiba!

















Exceto, talvez, 1) a admiração de Ibsen pela pintura de Brueghel, o Velho, 2) a genialidade de ambos e 3) o fato de que, nos últimos dias, eu estive em contacto com a arte dos dois.
Nesta sexta-feira, 3 de outubro, estou de volta a Bruxelas, depois de dias excelentes na antiga Christiania, hoje Oslo, para a qual me desloquei em serviço. A capital norueguesa surpreendeu-me, pois esperava encontrar uma cidade bem mais pacata do que ela realmente é, mas a impressão que tive foi de uma metrópole como qualquer outra que conheço. Discreta, como convém a uma senhora de 950 anos, Oslo alia a tradição à modernidade e, com uma simples caminhada, é possível cruzar tanto com uma juventude perfeitamente integrada no século em que vivemos, quanto com símbolos tradicionais da cultura nórdica.


A arte deixada por Ibsen está em toda a parte, nas grandes apresentações do Teatro Nacional ou em espetáulos encenados em teatros alternativos, sempre com alguma peça do autor em cartaz. Na noite da quarta-feira passada, fui correndo ao Teatro Nacional assistir a um colóquio (em inglês, não em norueguês) sobre a transcendentalidade da obra de Ibsen e, no final da palestra, um grupo alternativo teatralizou, em mímica, a influência da filosofia na vida e na obra do mestre. Ao sair do teatro, antes de voltar para o hotel, tomei um bom conhaque, para esquentar o corpo do frio que já se fazia sentir. Noite maravilhosa.




Quanto a Brueghel (que também assinava "Bruegel"), sempre me senti atraído pelas suas figurinhas que retratam o quotidiano flamengo do século XVI. No week-end passado, fui ao Museu Nacional de Belas Artes aqui de Bruxelas e depois de percorrer algumas salas, principalmente as que apresentam quadros de Brueghel, fui passear pela Rue Haute, no Maroles, onde ele viveu os seus últimos sete anos. Ao fim da tarde, fui fazer uma oração na igreja de Notre Dame de la Chapelle, onde Brueghel - l'Ancien (Brueghel, o Velho) casou e foi velado, quando de sua morte em 1569. Voltei para o meu flat em paz e cansado da andança.



Esses momentos de lazer e arte, em Oslo e em Bruxelas, fizeram muito bem ao meu espírito sonhador e permitiram esquecer um pouco a rudeza dos dias atuais.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

1º ANIVERSÁRIO




Um ano e parece que foi ontem


Não poderia começar a postagem com uma frase mais estereotipada do que esta, mas é a única que me vem à mente.




No dia 16 de setembro de 2007, enfrentei as minhas próprias resistências e ousei. Sim, ousei ao criar um blog (ou "blogue", tanto faz), porque não tenho a arte de escrever por profissão e a informática está longe de ser a área em que tenho maior especialização. Entretanto, a vontade de dizer, a não sei quem, o que sinto, o que gosto e o que não gosto, foi mais forte do que as deficiências e o blog "Lugar do Souto" está de parabéns, festejando um ano de existência.




Conversamos, os leitores e eu, sobre os temas mais variados. Divaguei, voei nos meus sonhos, narrei as minhas viagens e, principalmente, lembrei o e do passado. Quantos aniversários o Lugar do Souto ainda terá para comemorar, não posso saber, mas estou feliz, porque hoje, 16 de setembro de 2008, ele completa um ano e já se tornou um pouco parte de mim. Obrigado a todos que me estimularam e continuam estimulando em não deixar a memória apagar as coisas boas que não merecem ser apagadas.

PARABÉNS "LUGAR DO SOUTO"



sábado, 13 de setembro de 2008

ANGES DE FLAMME ET DE GLACE - Pièce de théâtre



"[...] L'arrivée de Rimbaud en enfer".

"Rimbaud : La lune blanche luit dans le bois. De chaque branche part une voix sous la ramée… Ô bien-aimée ! L’étang reflète, profond miroir, la silhouette du saule noir où le vent pleure… Rêvons, c’est l’heure. Un vaste et tendre apaisement semble descendre du firmament que l’astre irise…"

Verlaine: Pâle étoile du matin, tourne devers le poète [...]".* a partir daí, inicia a narração de parte da vida e da obra de Rimbaud, patrimônios espiritual e cultural da humanidade.

No dia 30 de agosto passado fui ao Recife, entre outras coisas, para assistir, à estreia da peça de Moisés Neto. Confesso que não me arrependi. Revi amigos que não encontrava há muito tempo e tive, ainda, algum tempo para refletir, debaixo de uma árvore do fruta-pão toda florida, sobre os Rimbauds, Verlaines, Mathildes e Vitalies existentes em cada um de nós.

Por fim, fiquei feliz com o resultado que o diretor de “Anjos de Fogo e Gelo”, o consagrado José Francisco Filho, atingiu com o bizarro texto colocado em suas mãos. Trabalho muito difícil, tenho a certeza. O texto, como podem deduzir da abertura, é uma coletânea de poemas de Rimbaud e de Verlaine, juntamente com uma descrição livre, feita pelo autor, de fatos da vida dos dois, incluídos para facilitar a compreensão dos espectadores Os poemas também foram livremente adaptados à prosa, tentando tornar o texto mais acessível
.


Sempre foi dito que tanto ao dramaturgo, quanto ao poeta, se deve consentir liberdade de espírito e de texto e Moisés Neto, autor da peça Anjos de Fogo e Gelo, usou e abusou dessa liberdade
.
A fala inicial, reproduzida no início desta crônica, é um trecho da magistral “La Lune Blanche”, do poema “La Bonne Chanson”, de Paul Verlaine, colocado na boca de Arthur Rimbaud. O autor da peça imaginou o momento de uma suposta chegada do poeta ao inferno e,
Se o resultado está sendo conseguido, deixo a resposta ao público e à crítica.

O diretor, esse sim, deve ter feito das "tripas coração” para prender a plateia - como de fato prende - durante a quase uma hora de duração da peça, já que Rimbaud, o poeta, é denso e Arthur, o homem, complexo demais, para serem - poeta e homem - facilmente compreendidos pelo público do meu querido Recife, nem sempre aberto à poesia, ao teatro ou a comportamentos humanos.

De minha parte, mesmo não sendo crítico teatral, captei uma certa insegurança dos protagonistas masculinos, o que é bastante natural em estreias "impactantes", talvez fruto do receio natural da reação que o texto e as marcas poderiam gerar nos assistentes. Receio desnecessário, ao menos na estreia de 30 de agosto.

Considero um dos destaques da peça - não sei se fruto do texto criado pelo autor, se do trabalho do diretor - a força das duas mulheres presentes no palco,
Vitalie, mãe de Arthur Rimbaud e Mathilde, mulher de Paul Verlaine, que conseguem ser protagonistas de uma narrativa na qual seriam coadjuvantes.

Mathilde, numa excelente interpretação de Stela Maris Saldanha, conduz linearmente todo o texto, tornando-se o elo de ligação entre as narrativas. Graças à atriz, o texto ficou bem mais fácil para os leigos.

Vitalie, também muito bem interpretada, transforma em momentos de comicidade a dispensável maldade que lhe tentaram atribuir. Discordo, data venia, de quem pensou mostrar Vitalie Rimbaud como uma pessoa amarga, ambiciosa e cruel na relação com o filho. Vitalie era uma mulher da burguesia rural do interior da França na época de Napoleão III, no rígido século XIX. O filho era um gênio, que poderia ter nascido em qualquer lugar, ou em qualquer época. Impossível, portanto, para uma mulher comum como Vitalie, entender as idiossincrasias de Arthur sem as criticar, aceitar os seus atos, sem se magoar e conviver com excentricidades, sem as recriminar. Daí, porém, a ser uma mãe sem amor, só interessada, anos mais tarde, nos lucros nascentes de Le bateau Ivre e dos demais poemas, eu não concordo. Ainda bem que Ivonete Melo conseguiu minimizar (mostrando ingenuidade) a suposta ambição de Vitalie Rimbaud.

A música (muitíssimo bem escolhida) e a iluminação completam o texto e a direção. Parabéns ao autor, ao diretor, aos quatro atores e a toda a equipe, que estão levando ao Recife um momento mágico da vida de pessoas mágicas, em um espetáculo que poderá alçar voos ainda mais altos.

Às pesoas que estiverem no Recife e leiam esta postagem, sugiro que vão ao Teatro Barreto Júnior e apreciem o espetáculo, pois vale a pena sim senhor.





Por puro diletantismo, para matar o tempo, resolvi colocar o texto de Moisés Neto no idioma materno dos quatro personagens. Tarefa difícil devido ao "melting pot textual" que ele é. Tenho me distraído bastante e o “trabalho” tem contribuído para que eu possa melhor conhecer a obra dos dois poetas. O título em francês - "Anges de Flamme et de Glace" - não é meu, mas emprestado de Arthur Rimbaud, mesmo assim, por se tratar da versão em outro idioma de uma obra teatral, é bom estar registrado (na versão em francês, é claro), para evitar constrangimentos ulteriores.


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*Início do texto em francês de "Anges de Flamme et de Glace".

domingo, 17 de agosto de 2008

DAS VITRINES E DOS SEGREDOS DE UM RECIFE DISTANTE



























Um dia desses, lendo uma postagem do ótimo blog de Geraldo Pereira, voltei, em pensamento, àquele tão cantado Recife, distante no tempo, adormecido na memória, perdido para o presente. Senti, então, uma saudade enorme de uma porção de coisas, entre elas, das sorveterias que surgiram na cidade no início da década de 1960, numa época em que eu despontava de menino para meninote. Na verdade, acho que mais do que das próprias sorveterias, senti saudade mesmo foi daquele tempo. Das idas às sorveterias sim, mas principalmente, dos passeios vespertinos e noturnos, tão tranquilos e prazerosos, quando meu pai levava toda a família para "matar" o tempo e sentir a brisa fresca que soprava do cais do porto para o centro da cidade.

De vez em quando, antes ou depois de tomar sorvete, a minha irmã pedia para irmos ver as vitrines da rua Nova e ela poder sonhar com um vestido da "Etan", da "Sloper", ou da moderníssima "Cláudia", que não ficava na Rua Nova, mas q
ue apresentava o melhor da moda de então.
A mamãe insistia sempre em ver a vitrine da "Viana Leal" e admirar este ou aquele apetrecho que faltava em nossa cozinha e que, quem sabe, lá para o fim do ano, o dinheiro poupado daria para comprar. E as horrendas floreiras de louça, com um dragão em cada ponta? Como ela sonhava em ter uma, ou então aqueles castiçais de louça azul que iriam combinar com o vaso de flores da mesma cor. Para o meu desespero, um dia ela teve a ambos - os castiçais e a floreira - os quais, algures, ainda temos hoje.
Quanto aos vestidos sonhados por minha irmã, a mamãe, que tinha um jeito enorme para desenho e costura, mal chegava em casa reproduzia os modelos, aproveitava um corte de tecido sempre guardado e, no final de semana seguinte, lá ia a minha irmã ao cine Art Palácio ou ao cinema Moderno, de vestido novo, igualzinho a um daqueles das vitrines da "Etan", da "Sloper" ou da "Cláudia", fazendo inveja às amigas que não tinham mães tão prendadas. Bons tempos!
Ah sim, e ai de mim se eu contasse o segredo e dissesse a alguma das amigas dela que aquele vestido era cópia... !
O meu irmão e eu éramos sempre obrigados a uma passagem pelas vitrines da "Rialto" ou da "Confiança" (não a confeitaria, que ficava na rua da Imperatriz, mas a camisaria) para escolher o cinto ou o suspensório que poderíamos ganhar de aniversário. Às vezes, a opção mudava e era um sapato da "Clarks" que tínhamos de escolher. Não lembro de ter algum dia recebido os acessórios tão insistentemente escolhidos.


Voltando às sorveterias e aos consequentes sorvetes. Em uma postagem anterior (19 de dezembro de 2007) já falei de minha infância e do homem que passava pela rua onde morávamos com uma lata de sorvete na cabeça apregoando as suas delícias – aquelas sim, deliciosas no verdadeiro sentido. Os tempos, porém, haviam mudado e bom mesmo naquele início dos sessenta - onde os macacos continuavam macacos e gente continuava gente - passou a ser tomar sorvete na "Dudi", na distante (para nós) praia do Pina, ou na recentemente inaugurada "Xaxá", que ficava no início da rua Corredor do Bispo. Eu gostava de sorvete de cajá, a minha mãe, da novidade, sorvete de milho verde e o resto da família não abdicava do de baunilha, bem docinho e enjoativo.


Bom mesmo, porém, não era tomar sorvete ou ver vitrine, mas sim ser feliz com pessoas que hoje só estão nas minhas lembranças, ter uma vida inteira por ainda viver. Bom mesmo era o Recife ser uma cidade aonde os sabiás e os bem-te-vis ainda cantavam, na qual a fome e a miséria não deviam ser tão grandes assim, porque não se matava por fome, nem, pior ainda, por um celular ou por um tênis de marca. Bom mesmo era tomar sorvete sentado sem medo, à frente de uma sorveteria que ficava na praça 13 de Maio e da qual, por mais que me esforce, não consigo lembrar do nome!
Hoje, bom mesmo seria, apenas, não esquecer os nomes!
Será que esta manhã eu acordei saudosista? Quem, eu ???

sábado, 26 de julho de 2008

A QUEM PERTENCE O DIÁRIO DE ANACLETO BRITO LEÃO?







Há uns dois ou três dias, um velho amigo meu, teatrólogo pernambucano de renome, associou-se a alguns outros (e outras) amigos e repetiu aquela pergunta que não quer calar: "Os direitos autorais do Diário de Anacleto Brito Leão pertencem a quem? Eis uma pergunta que merece resposta rápida e, para que tudo fique bem claro, resolvi, em primeiro lugar, contar quem foi esse Anacleto, autor das memórias que vêm sendo publicadas, desde 27 de outubro de 2007, no nosso "Lugar do Souto".
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Anacleto Augusto de Albuquerque Brito Leão nasceu a 10 de julho de 1892 num típico engenho novecentista dos subúrbios do Recife. Filho, neto e bisneto de nomes tradicionais ligados, pelo lado paterno, à cultura canavieira de Pernambuco e, pela mãe, às melhores famílias da nobreza cafeeira de São Paulo: café com açúcar, uma boa mistura. A infância foi feliz, rodeada de mimos pela mãe e por duas tias paternas, solteironas convictas, que viviam no Engenho da Várzea desde o nascimento e que nele morreram com todas as unções da Santa Madre Igreja. Do pai, o Barão da Várzea, recebeu a típica educação dos senhores de engenho, autoritária, rígida e machista. Além de Anacleto, os Barões da Várzea (título recebido no Segundo Império), tinham uma filha, Maria Laudelina, oito anos mais nova do que o irmão.




Em agosto de 1909, aos dezessete anos, Anacleto Augusto seguiu para Coimbra, Portugal, onde se formou em Direito, com especialização em Direito da Família. Aluno brilhante e boêmio inveterado pareciam duas realidades inconciliáveis, mas, para ele, não foram, pois apesar de nunca ter tido problemas com os estudos, sempre foi frequentador assíduo das paródias conimbricenses. Conta-se que muitas donzelas perderam esse status por causa dos amores sentidos pelo seu físico sedutor, pelo doce acento do português falado no nordeste brasileiro e pelos réis brasileiros que ele gastava aos milhares.



A 1ª Grande Guerra retardou a volta ao Brasil e em 1914 seguiu para Lisboa, supostamente para especialização nos melhores escritórios de advocacia da capital lusitana. Tal não aconteceu, já que lá se envolveu com uma dançarina espanhola que quase o levou à ruína moral e financeira, depois de o pai, em 1917, ter cortado a polpuda mesada que lhe mandava de Pernambuco. Para sorte dele e azar dela, a febre amarela levou a belíssima espanhola "desta para melhor" e ele, finda a guerra, seguiu para Londres, onde se ligou a um escritório de importação de um dos inúmeros amigos do pai, reabilitando o respeito paterno, a saúde abalada e a carteira vazia.


Em junho de 1922, pouco antes dos trinta anos, Anacleto e Alaíde de Castro Mello eram os alegres noivos da quadrilha de São João do Engenho da Várzea. A partir do seu regresso ao Brasil, passou a gerir a parte jurídica do Engenho do pai e a aproveitar a vida no melhor estilo. Anualmente, viajava às estações de inverno da Argentina, com uma obrigatória passagem por Montevidéu, no Uruguai e, de dois em dois anos, regressava à Europa, onde deixara amigos, amigas e amores vários. A morte dos avós em São Paulo e das tias paternas acima citadas, conseguiram deixá-lo mais rico do que o próprio pai, visto ser o único neto homem e o herdeiro absoluto e adorado das titias nordestinas. Em 1932 (julho) durante uma das férias no Parque Hotel de Montevidéu, foi acometido de uma forte febre - que se julgou tifóide - com delírios que o levaram a afirmar que vira a capital uruguaia no futuro. Recuperando-se da febre e dos delírios iniciou o diário, interrompido, inesperada e inexplicavelmente, na Quaresma de 1939 (quem sabe se um dia não se descobre a razão).
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A falta de herdeiros diretos e a autorização cedida aos donos da Editora Imaginação, dos quais a adquiri, são a resposta à pergunta sobre os direitos autorais das memórias de Anacleto Brito Leão, que pertenciam à Imaginação e agora pertencem a este blog, que mais não pretende do que tornar do conhecimento dos fiéis leitores um pouco da vida, dos amores, das tragédias de um homem chamado Anacleto, que viveu em outra época e em outros lugares que certamente existiram tal como ele os descreveu (assim me garantiu a Imaginação ao ceder os direitos autorais).
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À Editora Imaginação deixo aqui os meus agradecimentos pela publicação periódica do Diário de Anacleto e prometo que ele ainda será objeto de inúmeras postagens (após o crivo da censura prévia).

domingo, 6 de julho de 2008

BAILE NO PARQUE HOTEL*

(Continuação)
Depois de muito procurar, finalmente encontrei a máscara que comprara no carnaval de 1930, em Veneza, e que havia deixado em uma das gavetas do baú guarda-roupa, daí não a encontrar nos armários do quarto. Examinei-a cuidadosamente para ver o seu estado e, ao confirmar que ainda estava nova, joguei-a ao lado da roupa de soirée que a misteriosa camareira havia, tão cuidadosamente, colocado sobre a cama.
Naquele momento, voltei a pensar na mulher e nas estranhas coincidências que ela me relatara. Não é muito lógico que nunca tivéssemos visto no Parque Hotel - onde eu e minha família sempre nos hospedávamos - uma camareira natural de Pernambuco, que afirmava ter nascido em terras contíguas ao Engenho da Várzea, que nos pertencia há mais de 100 anos. Ainda por cima, a camareira dizia filha de um casal de criados dos meu avós! Estranho demais, sem dúvida! Coincidência demais, também! Decidi, portanto, que iria esquecê-la, pelo menos durante aquela noite, pois, como prometera a mim mesmo, queria concentrar a atenção na soirée dançante, onde, em segredo, comemoraria o meu natalício.

Entrei no “quarto de banho”, fiz a higiene pessoal, vesti o smoking, coloquei no rosto a máscara que, modéstia à parte, me ficava muito bem, às 20h58 em ponto, fechei a porta do quarto e saí para o baile. Desta vez, nem havia sinal de Alexandra of Leicester no hall do segundo andar, nem o ambiente estava envolvido pelo seu perfume, como que me informando que ela não passara por ali na última hora. O silêncio era absoluto, apesar da festa que iria em breve começar.

− ¿“Planta Baja, señor?” O ascensorista já estava com a porta pantográfica aberta e eu nem dera por isso. − “Si, si, por favor”, respondi, enquanto ele fechava lentamente a porta.

O grande salão do Parque Hotel, tantas vezes vazio nos meus sonhos, estava quase repleto e ainda mais iluminado do que sempre estivera. Só lamento que, por respeito à privacidade dos presentes ao baile, nenhum fotógrafo o tivesse captado assim. Os criados de mesa movimentavam-se em ziguezague cadenciado, a orquestra afinava os seus instrumentos e as mesas já estavam ocupadas em mais de 50% do total, principalmente pelos convidados, pois os hóspedes, não sei bem por qual razão, sempre chegam tarde às festas dos hotéis em que se encontram.
O maître perguntou se eu era Don Anacleto Augusto de Albuquerque Brito Leão, hóspede do quarto 27 e, após confirmação, encaminhou-me à mesa de número vinte e cinco, enquanto tagarelava dizendo que, quando ao final da tarde de hoje eu havia feito a reserva, conseguira o último lugar disponível na mesa, quando, ao final da tarde fizera a reserva. Antes de me acomodar, perguntei com quem dividiria a mesa e ele, desdobrando a longa lista dos presentes ao baile, disse que seria com Sir Charles Northumberland, Cônsul-Geral do Reino-Unido, com a Condessa viúva Alexandra Mary of Leicester e com o seu filho Timothy, Conde de Leicester, hóspedes, por mera coincidência numerológica, do quarto 25.

Nem sei como o meu coração não saltou peito afora, tal foi a aceleração cardíaca ao ouvir os últimos nomes! Evitei demonstrar a emoção que me assomou o espírito e fingi ouvir com atenção enquanto ele explicava que - “normalmente, as mesas são ocupadas apenas pelas primeiras pessoas que as reservam mas, devido ao grande número de hóspedes do hotel e de convidados especiais para aquela noite, a gerência havia perguntado a quem reservara antecipadamente se permitiriam que lugares vagos fossem ocupados. No caso da mesa vinte e cinco, a condessa havia dado autorização de ocupar o quarto lugar, mas ressaltara a exigência de querer que só fosse preenchido por um cavalheiro e hóspede do Parque Hotel”.

Pensei, a princípio, ser mais uma coincidência ocorrida no sábado 9 de julho, mas logo refleti que todos sabiam ser eu o único hóspede do sexo masculino sem companhia na temporada de inverno do Parque Hotel. Portanto, não foi coincidência!


Antecipando-me aos demais ocupantes da mesa, comandei ao escanção uma garrafa de Veuve Clicquot Ponsardin 1920 e me deixei levar pelos primeiros acordes da orquestra que acabara de abrir o baile como o grande sucesso do ano de 1932, “My Sweet”, em arranjo do original interpretado por Louis Armstrong. Às 21h30, quase todas as mesas estavam ocupadas, mas eu continuava a ser o único sentado à mesa vinte e cinco. De repente, como se tivessem saído do nada, deparei-me com os companheiros de mesa à minha frente. Levantei-me quase que com um pulo, cumprimentei aos três formalmente (em inglês, é claro) e disse simplesmente ao me apresentar - “Anacleto de Brito Leão, de Pernambuco, Brasil”.

Não me perguntem os leitores desta narrativa o que se passou naquele exato momento, pois o turbilhão em que estava a minha mente, com a ajuda da primeira taça do champanhe que eu havia sorvido, impossibilitaram de guardar com precisão o que ocorreu. Alexandra estava de braço dado a um elegantíssimo senhor que logo deduzi ser o Cônsul-Geral do Reino Unido e Timothy, a um
passo atrás, estava déguisé de "El Zorro", com o detalhe de uma máscara dourada que ressaltava, de maneira indescritível, o brilhante verde escuro do seus olhos. Alexandra parecia vinda de outra época, de um passado de mais de trinta anos, trajando um vestido cor de rosa, cintado à moda da Belle Époque, com leque e máscara de plumas brancas*. Se o traje era mesmo esse, já não posso afirmar, s
ó o que sei é que ela estava linda como eu nunca dantes havia visto outra mulher! (Com o devido respeito por Alaíde, tão longe, em Pernambuco).

Naquele exato momento, a orquestra começou tocando outro sucesso dos últimos tempos, “I can’t believe that you’re in love with me”:

http://www.youtube.com/watch?v=ykP8Wtcg86w

A terceira coincidência do dia 9 de julho de 1932, véspera do meu aniversário de quarenta anos!
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*até parece que eu escrevo sobre o mesmo tema de um tal Raoval Berior, cronista social quase desconhecido do Recife, mas que faz algum sucesso - pasmem - com notas jornalísticas sobre o vestuário das senhoras e senhorinhas e sobre eventos mundanos da capital pernambucana, sempre com alfinetadas sobre as pessoas da sociedade! A que ponto chegamos e a que ponto chegou o nosso jornalismo!.
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*Continuação das memórias de Anacleto Augusto de Albuquerque Brito Leão, postadas em 27 de outubro, 3 e 11 de novembro de 2007 e 23 de fevereiro de 2008.

terça-feira, 17 de junho de 2008

"C'ÉTAIT AU TEMPS OÙ BRUXELLES BRUXELLAIT"




Desta vez, a vinda a Bruxelas está sendo um autêntico "bate e volta". Cheguei no domingo, dia 15, e amanhã, dia 18, já estarei voando para Lisboa e depois, Brasília.


Sempre que estou aqui, vou ao Bozar (Palais des Beaux-Arts), à procura do que eles apresentam de bom. Hoje, ao cair da noite, fui e encontrei a exposição "Les collections royales d'Angleterre - De Bruegel à Rubens". Pela primeira vez, as coleções de pinturas flamengas pertencentes à Coroa Britânica atravessaram o Canal da Mancha e estão sendo exibidas em Bruxelas. A exposição está centrada nas pinturas da Flandres dos séculos XV ao XVII, compreendendo obras primas de Pieter Bruegel, o Velho, Rubens, Van Dyck, Hans Memling, entre outros.


Fiquei encantado com a contraposição entre obras de um mesmo mestre - pertencentes a coleções ou museus distintos, colocadas lado a lado, para que possam ser apreciadas conjuntamente. Por exemplo, o "Recenseamento de Belém" (acima), está ao lado do "Massacre dos inocentes" (abaixo), ambas de Bruegel, o Velho. A primeira tela pertencente à coleção de Sua Graciosa Majestade e a segunda, a um museu de Bruxelas. Os dois quadros ilustram magistralmente a inserção de cenas bíblicas nas paisagens cobertas de neve das vilas da região do Brabante. O fato de as telas estarem expostas conjuntamente permite a análise dos detalhes comuns, a observação das diferenças e a compreensão da técnica utilizada.


Bruxelas, porém, não é só museus, exposições, concertos e concursos musicais, é muito mais.


Bruxelles "bruxellait" na época cantada por Brel e Bruxelles "bruxelle" ainda hoje (não tentem traduzir o verbo, porque ele, oficialmente, não existe). As ruas insólitas do Marolles (bairro já mencionado em outras postagens), com esquinas românticas e pracetas improvisadas; a feira semanal da "Place du Châtelain", transformada em local de encontro das elites intelectual e artística e onde se degustam duas ou três (ou algumas mais) taças de vinho, sempre acompanhadas de uma porção de queijo artesanal; os brocantes dos fins-de-semana; a maratona de jazz do meio da Primavera; os passeios domingueiros nos parques verdíssimos com vários lagos de visão tranquilizadora. Tudo isso é Bruxelas. E mais, muito mais, para se ver ou fazer, dão a certeza de que Bruxelas brilhava na letra da música de Brel e brilha ainda hoje aos olhos dos que a sabem ver e amar.


Nada, nem ninguém em particular, me faz gostar de Bruxelas. Entretanto, pelo todo especial que ela é, eu gosto de estar em Bruxelas.