domingo, 12 de junho de 2011

COMUNICADO DA CASA REAL PORTUGUESA



O "Lugar do Souto" não tem por princípio divulgar comunicados e notas ou emitir opiniões que não sejam de exclusiva autoria e responsabilidade do seu autor, proprietário dos direitos do blogue. 
Atendendo a pedido recebido por correio eletrônico, transcreve o comunicado abaixo de autoria do Secretariado da Casa Real Portuguesa, ao qual se atribui inteira responsabilidade. A ilustre e incólume figura de S.A.R. o Senhor Dom Duarte de Bragança, Chefe da Casa Real Portuguesa levou-nos a abrir a exceção:

«Em face de diversas notícias divulgadas em diferentes órgãos de comunicação social , algumas delas atentatórias da dignidade e do bom nome do Senhor Dom Duarte de Bragança, vem o seu Secretariado esclarecer o seguinte:

1- Não existe qualquer sentença de condenação do Senhor Dom Duarte de Bragança ao pagamento de 100.000 €, nem existe qualquer sentença ordenando a penhora de bens da sua propriedade para garantia do pagamento dos referidos 100.000 €.

2- Corre os seus termos no 1º Juízo do Tribunal do Comércio de Lisboa a acção nº 93/07.0TYLSB, na qual, com base no registo de marca nacional nº 366085 e de logotipo nº 5694, é pedido que o Senhor Dom Duarte seja impedido de utilizar símbolos, ou semelhantes, com as insígnias usadas pela associação denominada Ordem de São Miguel da Ala

3- Tal pretensão foi contestada pelo Senhor Dom Duarte e a acção em causa aguarda, desde 2009, que seja proferido despacho saneador. Assim, a referida acção ainda não teve julgamento nem foi proferida qualquer sentença a esse respeito.

4- Por apenso a esta mesma acção foi instaurado um procedimento cautelar no qual foi proferida uma decisão – necessariamente provisória e meramente destinada a garantir o efeito útil de qualquer sentença que vier a ser proferida no processo principal - ordenando aos requeridos que se abstivessem de utilizar sinais idênticos ou confundíveis com aquelas marca e logotipo e estipulando, para a hipótese de atraso no cumprimento da decisão, uma sanção pecuniária compulsória de 200,00 € diários.

5- Posteriormente a esta decisão, datada de 23 de Outubro de 2009, não foi proferida qualquer outra decisão judicial sobre o assunto.

6- Enquanto aguarda serenamente a sentença a ser proferida no processo principal, o Senhor Dom Duarte de Bragança respeitou a decisão proferida no procedimento cautelar, abstendo-se imediatamente da utilização dos sinais distintivos em questão.

 8- Todas as outras questões relacionadas com a divulgação e o conteúdo das notícias em causa serão, a seu tempo, encaminhadas para sede própria.»



 Secretariado da Casa Real              www.casarealportuguesa.org

sexta-feira, 27 de maio de 2011

NA ÉPOCA EM QUE SE DAVA UM BIGU AOS VIZINHOS

Sou de uma tempo em que dar um bigu era uma praxe corriqueira, cotidiana, generalizada, e todos os que podiam davam. Até mesmo num fusca se dava um bigu. Como era salutar e tranquilizadora para a comunidade a prática de dar um bigu!

Calma, calma. Peço aos leitores mais conservadores, principalmente aos que não são do nordeste do Brasil, que não saiam deste blogue, porque o seu conteúdo não é erótico, nem as postagens têm qualquer cunho libidinoso, muito pelo contrário, nada mais correto e conservador do que as minhas lembranças postadas em forma de contos.

Ocorre, porém, que ultimamente tenho coletado na memória antigos termos ou expressões que caíram inteiramente em desuso no falar característico da cidade do Recife, onde nasci e moro atualmente. A primeira expressão que me veio à cabeça foi "dar um bigu". Quando eu era criança, havia o hábito do transporte em comum, solidário, participativo. Quem tinha carro dava bigu a quem não tinha ou a quem, por qualquer razão, preferia deixar o seu na garagem. "Dar um bigu" nada mais é do que "dar uma carona" ou, à lusitana, "dar uma boleia".

Um dia desses, conversando com um grupo de jovens, citei a expressão e, acreditem os que agora me leem, embora todos nascidos na capital pernambucana, nenhum sabia o que ela queria dizer, havendo até quem achasse que era algo de libidinoso. Meu Deus, onde é que estamos? O que se passa com as nossas expressões, com os termos seculares que sempre utilizamos aqui no Nordeste brasileiro e que foram absorvidos pela famosa globalização?

A partir da segunda metade da década de 1960 a televisão brasileira começou a receber influências dos programas produzidos no Rio de Janeiro e em São Paulo, primeiramente, sob a forma de vídeoteipes, em seguida, ao vivo e a cores, impondo a forma de falar do sudeste do país. Nada contra, mas lamento a perda gradativa de nossa identidade coloquial.

Voltando à expressão "dar um bigu", encontrei, em pesquisas na Internet, uma explicação que reproduzo a seguir, mas que duvido da veracidade: "[...Em tempos idos, construíram na cidade um hospital especialmente para soldados americanos que, quando precisavam ir para alguma parte da cidade, ficavam em frente ao hospital pedindo transporte (carona) aos carros que passavam, dizendo "be good, be good" ! Com o tempo, a expressão inglesa foi sendo modificada e se transformou no termo bigu...]". Embora, como disse acima, eu não ache que essa explicação seja verídica, no mínimo, ela é engraçada.

De tudo o que foi exposto, resta a proposta de se voltar à pratica de dar um bigu (ou vários bigus) aos vizinhos, para com isso tentar reduzir o número de veículos que circulam na nossa cidade, com engarrafamentos nunca dantes vistos por aqui. Sejamos solidários no transporte e a qualidade de vida de todos irá melhorar.


segunda-feira, 16 de maio de 2011

S.A.I.R. DONA MARIA ELIZABETH DA BAVIERA DE ORLEANS E BRAGANÇA

Estivesse o Brasil ainda sob o regime monárquico e o fim de semana ora findo teria sido de luto nacional, pelo falecimento, no passado dia 13, de Dona Maria Elizabeth da Baviera de Orleans e Bragança.

Filha do Príncipe Francisco da Baviera e da Princesa Elizabeth de Croÿ, Dona Maria nasceu em Munique a 9 de setembro de 1914, recebendo o nome de batismo de Maria Isabel Francisca Teresa Josefa de Wittelsbach e Croy-Solre. Em 19 de agosto de 1937 desposou o Senhor Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança, neto da Princesa Isabel, a Redentora, a quem sucedeu na chefia da Casa Imperial do Brasil. Pelo casamento, a princesa passou a ser, de jure, Imperatriz-Consorte do Brasil. Em 1945, a Augusta Senhora Dona Maria, em companhia de Dom Pedro Henrique e dos filhos até então nascidos, mudaram-se da Europa para o Brasil, onde fixaram residência permanente.


Exemplo de virtude cristã, S.A.I.R. Dona Maria da Baviera, como era mais conhecida, dedicou sua vida à educação dos filhos, a obras de caridade e, como lazer, à pintura em cerâmica. Após o falecimento de Dom Pedro Henrique, de jure Dom Pedro III do Brasil, Dona Maria passou a ser denominada Imperatriz Mãe do Brasil, devido ao fato de o seu filho primogênito, Dom Luiz, ter assumido a chefia da Casa Imperial. 

Nos últimos tempos, a Imperatriz Mãe vivia na cidade do Rio de Janeiro, onde entregou  o espírito ao Senhor na última sexta-feira, 13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima e da abolição da escravatura no Brasil.

O Lugar do Souto transmite os seus respeitosos e sentidos pêsames ao Augusto Senhor Dom Luiz e à toda a Ilustre Família enlutada.
Requiescat in Pace.

sábado, 2 de abril de 2011

RECIFE DE ONTEM, DE HOJE E DE SEMPRE


Se foi a saudade que me trouxe pelo braço, não sei, mas acho que sim, não vejo outro motivo para este regresso depois de um quarto de século ausente. Voltei para casa, isto é o que conta. Voltei para um Recife que já não é o da minha infância, nem o da minha adolescência, nem a cidade na qual eu vivi há algumas décadas, mas que, mesmo assim,  ainda posso chamar de meu Recife.

Gosto de acordar cedo no Recife, àquela hora em que os sabiás, rolinhas, bem-te-vis e tantos outros cantam anunciando a aurora, e sair passeando (sem nada nos bolsos ou nas mãos) pelas ruas do bairro onde nasci, numa rua onde o bairro das Graças se une ao dos Aflitos. Só mesmo no Recife existem bairros com nomes tão bizarros - não bastassem os nomes das ruas, de que já escrevi, há bastante tempo! 

Saio, sentindo no rosto a morna brisa matutina tão típica daqui. Caminho, caminho e caminho, sem rumo ou razão para caminhar, querendo, apenas, ver os casarões gastos pelo tempo e sentir o cheiro de terra úmida - da terra da minha terra.
                                                             
Ando a esmo, buscando um passado que não pode (nem deve) existir mais e me deparo em frente à capelinha dos Aflitos, onde fui a tantas missas com a minha família.
Continuo a caminhada e chego até o Clube Náutico, o meu time de coração, que lá continua vermelho e branco e imponente, apesar de tantos reveses. Faço o caminho de volta pela rua do Futuro, atravessando a rua Amélia e passando pela Rua João Ramos para chegar, finalmente, à Rua das Graças.
Dirijo-me, então, à Igreja de mesmo nome e onde fiz a minha Primeira Comunhão. Nada mudou, tudo mudou, eu mudei. Saio da Igreja das Graças e volto para casa devagarzinho, seguindo a toada dos pássaros matutinos.


Chego, então, à rua onde iniciei o meu caminho e procuro a minha casa, mas não a encontro. Como não a encontro se o número ainda está no muro? Mas o muro é outro, a casa lá dentro é outra, a rua parece ser outra. Só então me dou conta de que toda a caminhada não foi real, foi apenas um desejo, uma saudade enorme de um Recife que não existe mais, ao menos como era dantes.

Cadê o meu Recife de antigamente, onde andar a pé nas ruas era um prazer descuidado, onde as árvores tinham os troncos pintados pelos moradores, onde o sol tropical era menos forte, onde eu era jovem? Será que ele não existe mais? Penso e concluo que ele existe sim e está guardadinho bem dentro da minha memória, no fundo do meu coração. Mudou a paisagem, mudaram as pessoas, mudei eu, mas o meu Recife continua existindo, bonito, altaneiro, alegre e diferente do que um dia ele foi. Por isso e por muito mais estou feliz. Feliz por ter voltado à terra onde um dia nasci, ao meu Recife de ontem, de hoje e de amanhã, ao meu amado Recife de sempre.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

PÉRICLES, O AMIGO DA ONÇA E O FIM DO ANO DE 2010

Escolhi temas em excesso para o título desta postagem: um cartunista recifense, o seu personagem ilustre e reflexões sobre o último dia de um ano (no caso, 2010) do calendário gregoriano, mas prometo que serei breve sobre cada um deles.

Será que alguém recorda que neste 31 de dezembro, há exatos 49 anos,  ocorreu a trágica morte de Péricles de Andrade Maranhão? Faço outra pergunta, será que alguém, com menos de 49 anos, recorda-se de  Péricles?  No Brasil de hoje, de curta memória histórica, tenho dúvidas de que ele seja lembrado como o deveria ser e, sinceramente, lamento esse esquecimento.

Péricles nasceu em 1924, na cidade do Recife, no bairro do Espinheiro, que é contíguo ao bairro das Graças, no qual eu nasci, sendo esta a única coincidência entre nós.  Não sou desenhista, nem nunca tive o dom da comédia crítica, mas sei reconhecer um grande artista e o traço de Péricles é o reflexo  de um grande cartunista. Muito cedo,  Péricles foi para o Rio de Janeiro e, entre os anos de 1943 e 1962 (um ano depois de sua morte), a figura criada por esse gênio pernambucano estava presente em todos os fatos e piadas da época. 

No dia 31 de dezembro de 1961 o cartunista resolveu, aos 37 anos, dar fim à vida, por razões que não nos compete julgar. Ligou o gás, deixou um bilhete dizendo "Para mim, basta" e outro à porta pedindo para não riscarem fósforos e pronto... partiu dormindo. A solidão foi a causa do seu gesto e o "Amigo da Onça"  o seu algoz, já que Péricles não conseguia se libertar do fato de ser conhecido apenas como o seu autor. A criatura matou o criador, mesmo sem o querer fazer. Quem sabe se essa não foi a última maldade de "O Amigo da Onça"?

Gostaria de prestar a minha homenagem a Péricles e deixar aqui o meu manifesto para que as autoridades competentes de Pernambuco, em especial as da cidade do Recife, no ano de 2011, que já está  batendo à porta, não se esqueçam de homenagear os 50 anos do desaparecimento desse nosso conterrâneo ilustre, que ocorrerá a 31 de dezembro. Aproveitem a data, para promover, durante todo o ano, eventos sobre o autor e sobre a sua obra, inclusive os primeiros desenhos publicados no "Diário de Pernambuco".

É com essa nota que termino o ano de 2010, mais um dos muitos já festejados, de uma maneira ou de outra,  nas cidades onde vivi. Recordo, nem sei porque razão, que há 40 anos eu estava muito feliz numa gelada e colorida Paris. Que saudade daquele dia e daquela companhia!


Poderia, ainda,  falar de muitas coisas, inclusive da "Senhora Solidão", que levou Péricles tão jovem e que, a cada ano que passa, é companheira (será que solidão pode ser companheira?) de mais seres humanos, no Recife, no Brasil e um pouco por toda a parte. 


O dia 31 de dezembro, porém,  é dia de reflexão, de abraços, de companheirismo, de alegria e de promessas, não deixemos que ele seja um dia de solidão.

FELIZ 2011.
Todas as fotos e desenhos desta crônica estão livremente disponíveis na Internet.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A GRAND-PLACE DE BRUXELAS NO INÍCIO DE UMA NOITE DE OUTONO



No século X, os Duques de Basse-Lotharingie construíram uma fortificação numa ilha do rio Senne (não é o rio Sena, de Paris) que deu origem à cidade de Bruxelas. No final do século XI, perto desse castelo-fortificação, surgiu um mercado (ou feira) a céu aberto denominado “Mercado de baixo" (ou "Mercado Inferior"). Passaram-se os anos e os séculos e o mercado tornou-se o centro do comércio de Bruxelas. Nos séculos XV, XVI, XVII  e XVIII o local foi, aos poucos, sendo transformado com a construção de maravilhosos monumentos arquitetônicos. No século XVII, o Rei Luís XIV da França bombardeou a praça, mas, depois de ter sido reconstruída, ela ficou ainda mais bela e monumental.



Após algum tempo, o local ficou conhecido por “La Place du Grand-Marché” ou “La Grand-Place".

Todos os que acompanham os textos do "Lugar do Souto" sabem que eu gosto muito de Bruxelas, cidade que faz parte de minha vida há mais de 25 anos e onde morei entre maio de 1999 e novembro de 2004. Gosto sim e agradeço à vida que, entre o tanto que me tem dado, oferece a chance de vir a Bruxelas várias vezes ao ano. Apesar dessa ligação com a cidade e de várias crônicas postadas a seu respeito, nunca citei a Grand-Place, patrimônio cultural da humanidade e um dos lugares mais visitados da Europa.

Nesta postagem, preferi falar pouco da Grand-Place, de indescritível beleza (mais bela ainda ao anoitecer) e, apesar das falhas do fotógrafo amador que sou, decidi postar fotos mostrando, inclusive, a árvore do próximo Natal pronta para ser decorada, além de algumas outras, com detalhes desse património da humanidade.
 
Resolvi aproveitar o fato de o trabalho ter acabado mais cedo para, no fim da tarde de hoje, dia 17 de novembro de 2010, ir passear pela Grand-Place de Bruxelas e, ao mesmo tempo, dar um "até breve" ao centro da cidade. 

Comecei o passeio solitário degustando dois croissants na Patisserie Paul, só para fazer inveja a uma amiga do Recife. Imaginem os leitores, que essa minha amiga, quando veio a Bruxelas, na Primavera deste ano, fez "biquinho" e não  quis conhecer as iguarias dessa padaria/pastelaria francesa, só porque estava chovendo e, por preguiça de sair do hotel, ficou assistindo filmes na televisão. Ela não sabe o que perdeu naquele dia! Mesmo assim, vou levar um croissant para ela...

Prestem atenção na composição dos edifícios e nos detalhes de cada um deles. De minha parte, quanto mais visito a Grand-Place, mais me sinto extasiado por sua beleza.

                 

Não estarei em Bruxelas no Natal de 2010, mas sugiro virem até aqui (quem tiver tempo e puder), pois a beleza do local compensará o frio que, sem dúvida, estará fazendo na noite de 24 de dezembro.


Espero voltar em breve!

domingo, 19 de setembro de 2010

PAREDES DE BRUXELAS INSPIRADAS NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (BANDA DESENHADA)


Pois é, ainda que não pareça, a foto acima é da fachada lateral de um prédio no centro de Bruxelas.

Como todos os que acompanham as postagens deste blogue já devem ter percebido, sou apaixonado por Bruxelas, onde hoje me encontro. Resolvi, então, aproveitar o domingo de finzinho de verão, com frio de outono, para passear pelas ruas da cidade, câmera em punho, tirando fotos das famosas paredes coloridas com desenhos inspirados nas histórias em quadrinhos, uma paixão nacional.

Nada mais agradável do que passar quase um dia inteiro à procura das famosas paredes e, quando se pensa que tudo está visto, depara-se com outro muro, parede ou porta de loja reproduzindo um trecho de alguma história em quadrinhos (banda desenhada, como chamam os portugueses).

A capital do Reino da Bélgica, hoje também capital da União Europeia, sempre foi um centro de difusão de histórias em quadrinhos, bastando apenas lembrar o famoso "Tintin", quase um herói nacional, que se encontra por toda a parte, reproduzido em desenhos ou em bonecos para serem vendidos. A cidade tem, inclusive, um museu da história em quadrinhos.

Um dos passeios mais apreciados, tanto pelos turistas, quanto pelos nacionais, que gostam dos "quadrinhos", é percorrer a cidade a pé, fotografando cada um dos murais que encontra (ao todo, mais de trinta). Como sou preguiçoso, preferi percorrer apenas as ruas do centro e algumas do Maroles (bairro típico já referido outras vezes), deixando as mais afastadas para outra ocasião.


A maioria das reproduções são de alta qualidade e o passeio vale a pena. A obsessão dos belgas pelos "quadrinhos" chega até à reprodução em portas de armazéns ou depósitos abandonados de histórias mais atuais e menos conhecidas, com pinturas de gosto duvidoso.

Deixo aqui algumas das fotos que fiz esta tarde, juntamente com um convite a quem vier a Bruxelas: aproveitem tudo de bom que a cidade tem a oferecer, inclusive as paredes com reproduções dos desenhos das histórias em quadrinhos (banda desenhada).
Atendendo a um pedido expresso, incluo o mural abaixo com o famoso TINTIN. É pena que a foto não esteja muito nítida, pois foi feita ao final do dia e a luz não ajudou.


Termino esta crônica com uma vista que colhi dos telhados de Bruxelas, que também são uma atração para os que visitam a cidade.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

3º ANIVERSÁRIO

Chegamos ao dia 16 de setembro de 2010 e ao terceiro aniversário do "Lugar do Souto".  Reconheço que tenho andado um pouco distante das postagens e daqueles que acessam este blogue.
Nem de longe, porém, pretendo deixar de recordar o passado, comentar o presente e, de certa maneira, prever o futuro, como vem sendo feito desde o dia 16 de setembro de 2007.

Muitas vezes, a dura realidade nos impede de sonhar como gostaríamos de o fazer e os arremedos de crônicas que insiro no Lugar do Souto são os sonhos que gosto de ter. Prometo, portanto, principalmente a mim mesmo, que continuarei, por mais alguns anos, sonhando os meus sonhos possíveis e impossíveis e compartilhando esses sonhos com os que me honram com a sua leitura, enquanto, é claro, sonhos eu tiver para contar.


Parabéns LUGAR DO SOUTO.
  

terça-feira, 29 de junho de 2010

O DIA DE UM MENINO QUANDO O BRASIL FOI CAMPEÃO DO MUNDO DE FUTEBOL


* Hoje, dia 29 de junho de 1958, mesmo sendo domingo e estando de férias, acordei mais cedo do que o habitual, porque, além de ter de ir à Missa das 8:00h, na Capelinha dos Aflitos, acompanhando mamãe e minha irmã, dois grandes eventos iriam ocorrer. O primeiro, era a transmissão, às 10:00h, da final da Copa do Mundo de futebol, diretamente da capital da Suécia. A Copa do Mundo deste ano serviu, ao menos, para eu memorizar, e nunca mais esquecer, que a capital da Suécia é Estocolmo e que o rei de lá se chama Gustavo Adolfo.




Meu pai e meu irmão, bem cedo, prepararam as cadeiras em torno do potente rádio Phillips, que temos no terraço dos fundos. Antes das 7 horas, os dois trouxeram o rádio da sala, ligaram a antena para melhorar a qualidade da recepção, confirmaram que estava excelente, e penduraram uma bandeira do Brasil na parede atrás do rádio.

O segundo evento era a quadrilha que iria dançar esta tarde, na matinê da festa de São Pedro, do Clube Português do Recife. A minha estreia na quadrilha foi na terça-feira passada, na matinê de São João, tendo como par uma menina aqui da Rua do Cupim, chamada Margarida, que faz o meu coração palpitar aceleradamente quando seguro a sua mão para dançarmos o comando do “alavantu” (o meu professor de francês disse que o correto é “en avant tous”). Sem dúvida, segurar a mão de Guida, em qualquer momento da quadrilha, é mais importante para mim do que a decisão do campeonato de futebol, mas, mesmo assim, estava, também, ansioso para escutar o jogo.

Depois de sair da cama e de, rapidamente, fazer o asseio matinal, corri para o quintal, onde o meu pai, entretido, colhia os frutos maduros de um único cafeeiro que ele plantou e que, este ano, floresceu e manteve uma quantidade suficientemente boa de frutos para preparar, depois de secos, ao menos um bule de saboroso café. - “Saia do quintal, menino, para não sujar a roupa antes da Missa”, gritou mamãe da porta da cozinha, quase ao mesmo tempo em que papai, num tom bem mais baixo, dizia -“Não ligue para o que a sua mãe está dizendo e segure a escada, enquanto eu subo para tirar os frutos que estão nos galhos de cima”. Com tantos comandos desencontrados, como saber a qual (ou a quem) obedecer? Seja como for, depois que o meu pai desceu da escada, entrei em casa e já me preparava para comer um pedaço de canjica, que Maria havia feito na véspera, quando ela me repreendeu -“Tire a mão daí, que você não pode comer nada antes da Missa, porque sua mãe me disse que iam todos comungar”. Não é que eu havia esquecido!

Embora a Capelinha fique muito perto aqui de casa, mamãe gosta de sair cedo, para sentar num bom lugar, longe da porta de entrada. No caminho, não se falou em Copa do Mundo, nem na quadrilha de São Pedro, pois a conversa de mamãe era só sobre o Papa Pio XII, que está bastante doente. Enquanto caminhávamos, explicou que a comunhão de hoje seria em intenção de uma rápida recuperação do Santo Padre, mas que ela não acreditava muito nisso, pois as notícias da saúde do Papa não são nada promissoras. Pensei, então, que em breve teremos mais um santo no Céu que, quem sabe, poderá fazer o milagre de Guida prestar mais atenção em mim do que em Marcelo, que é o par da filha de dona Leda. Eu soube por Marcelo que Guida está "arriada dos quatro pneus" por ele, que nem adianta eu tentar nada, mas vou tentar, nunca se sabe o que se passa no coração de uma menina de 10 anos. Ao entrar na Capelinha eu já estava decidido que, quando as férias acabarem, iria rezar três Ave Marias na igreja nova do Ginásio São Luiz, pedindo o milagre do primeiro amor, nem que seja para ele acontecer só na quadrilha do ano que vem, quando eu já estiver com 12 anos.

Voltamos da Missa e, mal acabei de tomar café, o jogo começou. Que tragédia, eu ainda estava comendo a canjica que não me tinham deixado comer mais cedo e a Suécia fez o primeiro gol! Papai disse que o gol foi de um tal de Liedholm, quatro minutos depois de o jogo começar e que Gilmar não teve como defender. Meu irmão, como de costume, chamou dois ou três palavrões e levou um tremendo puxão de orelha de mamãe, mandando que ele fosse lavar a boca. A minha irmã estava radiante com o puxão de orelha que ele acabara de levar e nem ligou para o gol sueco, vaticinando que iria se repetir o mesmo da Copa de 1950. Chegou até a dizer que a culpa de tudo era do uniforme azul, em lugar do tradicional amarelo, que a nossa seleção estava hoje usando -“Não adiantou de nada Feola dizer que azul é a cor do manto de Nª Srª Aparecida, porque santo não faz milagre em jogo de futebol”, continuou ela dizendo, sendo, de pronto, repreendida por nossa mãe com um solene - “Cale já essa boca"!

Nesse meio tempo, saí de fininho do terraço e fui ver se Maria e dona Maria já tinham acabado de fazer o pé de moleque, que estavam preparando desde cedo, para que eu pudesse raspar a forma. Enquanto eu degustava, nos dedos, o último bocado da massa do bolo, dona Maria me chamou e disse  - “Se importe não, meu fio, que o Brasil vai ganhar; basta ocê prometê que vai jogar três batatas para o Céu, pra dar de comê pros santos”. - Não entendi bem a promessa, mas prometi.

O 1º tempo ainda não tinha acabado e o pernambucano Vavá, natural do Recife, da Vila dos Bancários, aqui bem pertinho, já tinha metido dois gols. Goool! Gool de novo, era o que se ouvia por todos os lados. No intervalo, corri para o quintal e perguntei a dona Maria se já podia jogar as batatas para o céu, ela disse que não, que eu tinha de esperar o apito final, mas, por garantia, teria de aumentar a promessa de três batatas, para cinco. Prometi de novo, entendendo menos ainda, principalmente porque as batatas iriam ficar todas molhadas, com a chuva que estava caindo. Começou o 2º tempo, outro gol brasileiro, - "De um menino de apenas 17 anos", dizia papai cheio de orgulho, - "Pelé é o seu nome". Mais outro, do veterano Zagalo, seguido de um gol da Suécia, que não incomodou ninguém. Que belo resultado, 4 a 2 para o Brasil. No finalzinho, quando seu Adalberto já estava soltando os foguetes, o menino, o tal de Pelé, marca o 5º gol do Brasil. Somos campeões do Mundo por 5 a 2. “A Copa do Mundo é nossa, com brasileiro, não há quem possa. Êh eta esquadrão de ouro, é bom de bola, é bom de couro".




Corri para o fundo do quintal e, na porta da garagem, dona Maria já me esperava com 5 batatas na mão, que teriam de subir para o céu e dar de comer aos santos. Joguei e nunca mais vi as batatas! Algum santo comeu!


Voltei para o terraço ainda a tempo de ouvir o locutor dizendo que aquele era um dos momentos mais bonitos e emocionantes de sua vida, o Brasil, campeão do mundo de futebol e Bellini, o capitão de nosso time, levantando bem alto a taça Jules Rimet, que agora viria para o Brasil. O radialista disse, ainda, que o gesto de Bellini, levantando a Jules Rimet acima da cabeça, foi para atender aos pedidos de alguns jornalistas brasileiros, que não conseguiam fotografar o capitão com a taça, porque os estrangeiros eram mais altos e estavam na frente. Que pena que ainda não temos televisão no Recife para ter visto esse gesto de Bellini! 

Almoçamos, descansei um pouco e, às três e meia, fomos felizes para o Clube Português, dançar quadrilha e comer mais canjica. Nunca dancei tão bem e, milagre ou não, na tarde de hoje, Guida segurou mais firme a minha mão e nem olhou para Marcelo, que quase brigou comigo, achando que a culpa era minha. Será milagre de São Pedro ou do Papa Pio XII, que ainda não morreu e que, portanto, não é santo? Vá lá eu saber!

Agora, vou dormir, são nove horas da noite e amanhã quero recortar todas as fotos que vão sair nos jornais e colar tudo neste caderno de desenho, junto com esta folha de papel, que agora termino de escrever. Boa noite!
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* Cascavilhando os meus alfarrábios, encontrei o texto acima, rascunhado, com letra infantil, em um caderno de anotações desgastado pelo tempo. Quem sabe se o pasquim “Memória”, da “Editora Imaginação”, ambos várias vezes citados neste blogue, não irá se interessar pelo texto?